O Minotauro

Sei que sôo repetitiva ao elogiar a força do estilo dos velhos escritores infantis, mas foi impossível não reproduzir o trecho que li hoje à tarde para as crianças.

– O sonho é esse, senhor Péricles, mas a realidade para a qual caminhamos afastar-se-á muito dessa sensatíssima concepção. A pobre humanidade, depois de tremendas lutas para escapar à escravização aos reis, caiu na escravização, pior ainda, ao Estado – à palavra “Estado”.
– Quer dizer que no futuro os reis de carne e osso serão substituídos por um “som” – o som “Estado”?
– Sim, e isso virá a fazer mais mal ao mundo do que todos os velhos reis reunidos, somados e multiplicados uns pelos outros. Esta forma democrática de Atenas tropicará no meio do caminho. Será destruída pela palavra “Estado”, que crescerá e dominará tudo até chegar à forma “totalitária” em que o som “Estado” é o total, e nós, os indivíduos, simples pulgas.
Péricles ficou meditativo. Aquela revelação vinha contrariar as suas ideias sobre a continuidade do progresso humano.
– Então… então a prova provada de que uma forma de governo é boa não tem valor nenhum? O progresso não é uma consolidação de conquista?
– Nem na arte é assim, senhor Péricles. Ao ver aqui em sua casa estas maravilhas da escultura grega, sinto pontadas no fígado.
– Por quê, minha senhora?
– Porque o futuro vai afastar-se disto…
– Como? Não admite então que nestas estátuas há o máximo de beleza que os escultores já conseguiram?
– Admito, sim – mas “sei” que no futuro isto será motejado, e esta beleza substituída por outra, isto é, pelo horrendo grotesco que para os meus modernos constituirá a última palavra da beleza. Como prova do que estou dizendo vou mostrar um papel que por acaso tenho aqui na bolsa – e Dona Benta tirou da bolsa uma página de “arte moderna”, onde havia a reprodução de umas esculturas e pinturas cubistas e futuristas.
Péricles olhou para aquilo com espanto e mostrou-o a Fídias.
– Mas é simplesmente grotesco, minha senhora! – disse depois. – Estas esculturas lembra-me obras rudimentares dos bárbaros da Ásia e das regiões núbias abaixo do Egito…
– Pois não são. São as maravilhas que embasbacam os povos mais cultos do meu tempo – a 2.377 anos daqui…
Os dois gregos ficaram literalmente tontos, sem saber o que pensar. As revelações da estranha velhota vinham opor-se a todas as suas ideias sobre a marcha indefinida do progresso humano. Totalitarismo, cubismo, futurismo… Pobre humanidade!

Findado o capítulo, conversamos sobre como as coisas nunca tendem, por si mesmas, a melhorar, mas, pelo contrário, sempre tendem a piorar. Daí o esforço que precisamos fazer todos os dias por mantermos a casa limpa, por aprendermos mais, por nos tornarmos mais inteligentes, mais corajosos e mais santos.

“Laocoonte e seus filhos”, de 40 a.C. – posterior a Péricles.
“A senhora”, de Picasso.

Ah, que saudades do tempo em que os escritores não temiam tomar partido e explicitá-lo! Que saudades do tempo em que não se subestimava a capacidade compreensiva das crianças! Que saudades do tempo em que a infância não era um ideal para a vida inteira, mas apenas a primeira etapa da vida!

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