A verdadeira felicidade

O Salmo de hoje (4, 6) nos diz:

“Dizem muitos: ‘Quem nos fará ver a felicidade?’

Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face.”

Meditando a respeito, lembrei-me de uma outra passagem, a chamada bênção de Aarão (Num 6, 25 e 26) com a qual Moisés ensinou o sacerdote a abençoar o povo de Israel:

“O Senhor te mostre a sua face e conceda-te sua graça!

O Senhor volva o seu rosto para ti e te dê a paz!”

O rei Davi relaciona coisas que são, aparentemente, díspares: a felicidade com a luz de Deus. Parece-nos que a felicidade tem a ver com outras coisas, tais como prosperidade, saúde, alegria… Mas tanto numa quanto noutra passagem a felicidade (e também a paz) não somente estão relacionadas como dependem mesmo do rosto de Deus, do seu voltar-se sobre nós, do seu olhar sobre nós, suas criaturas.

Na leitura dos santos e místicos da Igreja fica mais fácil compreender o que o salmista e o profeta querem dizer com isso, o tipo de experiência a que se referem. Pois, sim, trata-se de uma experiência real de provar o olhar favorável de Deus sobre si – o que é totalmente diferente de experimentar, por exemplo, o recebimento de uma bênção material (embora seja bênção vinda do Senhor). Quando Deus “volve o seu rosto” ou “faz brilhar sobre nós a luz da sua face” nos tornamos, concretamente, alvos do seu amor de um modo incomparável. E é por isso que a felicidade e a verdadeira bênção estão diretamente ligados ao rosto de Deus, ao seu olhar, e a nada mais. E é por isso que os contemplativos são os mais felizes, pois vivem continuamente em busca desse maravilhoso olhar.

Contudo, não é preciso que estejamos num cume da vida espiritual para compreendermos a veracidade do que nos diz a Sagrada Escritura e o testemunho dos santos, basta que pensemos em nossos filhos. Quantas vezes eles não nos pedem para que olhemos para eles: “Olha, mãe! Olha, pai!”, “Olha só!”, “Olha aqui pra mim!”? E é só isso o que eles de fato querem, que olhemos para eles e os enxerguemos, que os vejamos, que contemplemos quem eles são, muito mais do que aquilo que eles fazem (o que eles fazem para nos impressionar é só uma desculpa que para olhemos para eles), não é verdade? Se, por um lado, os recursos naturais com que os cercamos promovem a sua subsistência física, o nosso olhar, a nossa atenção, a luz que derramamos sobre eles quando voltamos o rosto na sua direção promovem a sua subsistência psíquica. É como se, no fundo dos seus corações, eles passassem a saber: “Eu existo! Eu tenho importância! Eu sou alvo do amor de minha mãe/meu pai!” E isso é muito diferente de saber-se resultado do amor, de saber-se criatura: é saber-se filho, de fato. Mas quantas vezes nos dispomos a isso? Quantas vezes o fazemos de maneira atenta, amorosa, realmente entregue à contemplação de quem eles são? Quantas vezes focamos em aspectos de suas pessoas e não em sua essência?

Teses psicológicas foram escritas afirmando a importância do olhar, sobretudo o materno, para a formação da personalidade da criança*. Mas não é preciso recorrer a outras autoridades para compreendermos tudo isso, basta imaginarmos o que é ser alvo do olhar do Deus que é puro amor, cuja misericórdia excede os céus… aquele mesmo Deus que entregou Seu filho por amor de nós. Ser alvo deste olhar, ser iluminado pela sua infinita bondade é passar a existir de uma maneira toda nova, é passar a desfrutar de uma posição muito mais íntima e amorosa diante de Deus, é saber-se filho.

Que consigamos oferecer às nossas crianças esta primeira experiência da verdadeira felicidade, que possamos olhá-las e enxergá-las realmente, que possamos iluminá-las com a bondade do nosso semblante e imprimir em seus corações a certeza de que ainda melhor, ainda mais amoroso e generoso é o próprio Deus.

*Confira Winnicott.

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