Bonitos por causa de Deus

“Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. […] Deus contemplou toda a sua obra e viu que tudo era muito bom.” Gênesis 1, 27, 31a.

Ontem à noite Chloe perguntou-me em qual época de minha vida eu me achava mais bonita: se quando mais jovem, ou agora, mais velha. Respondi-lhe que, sem dúvida, quando mais jovem meu corpo era mais bonito e tudo nele funcionava melhor, contudo, eu não tinha olhos bons para apreciar o que era, de modo que passei boa parte da minha juventude sofrendo em busca de aceitação (dos outros e minha própria). Agora, por outro lado, disse-lhe eu, o amor de seu pai, enquanto ferramenta do amor de Deus, e o amor do próprio Deus me haviam curado de tal maneira que, mesmo já não sendo mais tão jovem, estava plenamente satisfeita com meu corpo, pois conseguia enxergá-lo como uma obra de Deus.

Conversamos muito mais, obviamente, mas de tudo o que dissemos, talvez o mais importante seja aquilo que creio que consegui comunicar-lhe: o fato de que a insatisfação e a busca por uma perfeição física sempre inatingível (pois sempre se redefine e muda de foco) é uma cilada do diabo.

Não é preciso ser muito esperto para saber que a maioria de nós não é composta de beldades. Ou seja, é verdade que poderíamos ser mais assim ou mais assados. Contudo, quando começamos a fazer esse exercício de pensar naquilo que poderíamos modificar em nossos corpos (seja através de dietas, de exercícios, de massagens, de maquiagens, de roupas ou de cirurgias) para nos adequarmos a um padrão que sequer sabemos de onde vem e por que existe, somos aprisionados dentro de um circuito infindável de “defeitos vs. busca por soluções”. E, enquanto isso, a vida de verdade passa, e nós seguimos sempre insatisfeitos e loucos como cachorros atrás do próprio rabo, mendigando a aprovação dos outros e em guerra contra nós mesmos.

Disse-lhe também que todo esse esforço não passa, no fundo, de uma revolta contra Deus, de rejeição da Sua vontade expressa na forma que possuímos e, portanto, de algo fomentado pelo próprio inferno para manter-nos distraídos do que realmente importa, isto é, a Eternidade. Afinal, passados mais alguns anos, para que servirá este corpo miserável senão para alimentar os vermes? Não o levaremos, nem a ele nem nada do que possuímos materialmente, para o céu. Vale mesmo a pena tudo isso?

Por outro lado, quando reconhecemos nossas imperfeições constitutivas como parte do maravilhoso e misterioso plano de Deus para nossas vidas, quando nos submetemos graciosamente à Sua vontade, quando agradecemos pelo que temos e somos, quando, enfim, reconhecemos o Seu imenso amor por nós, expresso também por meio daqueles que nos amam sabendo dos nossos defeitos e limitações, então somos curados, então as escamas caem dos nossos olhos, então vemos a beleza que há em tudo o que Deus faz, então somos libertos, então descansamos e nos alegramos, cheios de gratidão.

E isso nada, absolutamente nada tem a ver com viver à moda desregrada, entregando-se a todo e qualquer deleite físico. Pelo contrário: o amor de Deus nos “aprisiona” a Ele, de modo que tudo o que fazemos, inclusive o cuidado elementar com a conservação da própria vida, é feito com o pensamento voltado para Ele, buscando agradá-Lo. Se me entrego à indolência e ao meu próprio prazer, então caio no outro extremo: saio da neurose da busca do corpo ideal para a lassidão da irresponsabilidade e do desleixo.

Que cada mulher cristã que lê este texto (e homem também) possa descobrir-se como pessoa especialmente desejada e planejada por Deus, pois cada vida trazida ao mundo é a renovação da Sua criação. E, como no Éden, o Senhor olha para cada criatura Sua e diz: é muito bom.

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