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Bonitos por causa de Deus

“Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. […] Deus contemplou toda a sua obra e viu que tudo era muito bom.” Gênesis 1, 27, 31a.

Ontem à noite Chloe perguntou-me em qual época de minha vida eu me achava mais bonita: se quando mais jovem, ou agora, mais velha. Respondi-lhe que, sem dúvida, quando mais jovem meu corpo era mais bonito e tudo nele funcionava melhor, contudo, eu não tinha olhos bons para apreciar o que era, de modo que passei boa parte da minha juventude sofrendo em busca de aceitação (dos outros e minha própria). Agora, por outro lado, disse-lhe eu, o amor de seu pai, enquanto ferramenta do amor de Deus, e o amor do próprio Deus me haviam curado de tal maneira que, mesmo já não sendo mais tão jovem, estava plenamente satisfeita com meu corpo, pois conseguia enxergá-lo como uma obra de Deus.

Conversamos muito mais, obviamente, mas de tudo o que dissemos, talvez o mais importante seja aquilo que creio que consegui comunicar-lhe: o fato de que a insatisfação e a busca por uma perfeição física sempre inatingível (pois sempre se redefine e muda de foco) é uma cilada do diabo.

Não é preciso ser muito esperto para saber que a maioria de nós não é composta de beldades. Ou seja, é verdade que poderíamos ser mais assim ou mais assados. Contudo, quando começamos a fazer esse exercício de pensar naquilo que poderíamos modificar em nossos corpos (seja através de dietas, de exercícios, de massagens, de maquiagens, de roupas ou de cirurgias) para nos adequarmos a um padrão que sequer sabemos de onde vem e por que existe, somos aprisionados dentro de um circuito infindável de “defeitos vs. busca por soluções”. E, enquanto isso, a vida de verdade passa, e nós seguimos sempre insatisfeitos e loucos como cachorros atrás do próprio rabo, mendigando a aprovação dos outros e em guerra contra nós mesmos.

Disse-lhe também que todo esse esforço não passa, no fundo, de uma revolta contra Deus, de rejeição da Sua vontade expressa na forma que possuímos e, portanto, de algo fomentado pelo próprio inferno para manter-nos distraídos do que realmente importa, isto é, a Eternidade. Afinal, passados mais alguns anos, para que servirá este corpo miserável senão para alimentar os vermes? Não o levaremos, nem a ele nem nada do que possuímos materialmente, para o céu. Vale mesmo a pena tudo isso?

Por outro lado, quando reconhecemos nossas imperfeições constitutivas como parte do maravilhoso e misterioso plano de Deus para nossas vidas, quando nos submetemos graciosamente à Sua vontade, quando agradecemos pelo que temos e somos, quando, enfim, reconhecemos o Seu imenso amor por nós, expresso também por meio daqueles que nos amam sabendo dos nossos defeitos e limitações, então somos curados, então as escamas caem dos nossos olhos, então vemos a beleza que há em tudo o que Deus faz, então somos libertos, então descansamos e nos alegramos, cheios de gratidão.

E isso nada, absolutamente nada tem a ver com viver à moda desregrada, entregando-se a todo e qualquer deleite físico. Pelo contrário: o amor de Deus nos “aprisiona” a Ele, de modo que tudo o que fazemos, inclusive o cuidado elementar com a conservação da própria vida, é feito com o pensamento voltado para Ele, buscando agradá-Lo. Se me entrego à indolência e ao meu próprio prazer, então caio no outro extremo: saio da neurose da busca do corpo ideal para a lassidão da irresponsabilidade e do desleixo.

Que cada mulher cristã que lê este texto (e homem também) possa descobrir-se como pessoa especialmente desejada e planejada por Deus, pois cada vida trazida ao mundo é a renovação da Sua criação. E, como no Éden, o Senhor olha para cada criatura Sua e diz: é muito bom.

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A verdadeira felicidade

O Salmo de hoje (4, 6) nos diz:

“Dizem muitos: ‘Quem nos fará ver a felicidade?’

Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face.”

Meditando a respeito, lembrei-me de uma outra passagem, a chamada bênção de Aarão (Num 6, 25 e 26) com a qual Moisés ensinou o sacerdote a abençoar o povo de Israel:

“O Senhor te mostre a sua face e conceda-te sua graça!

O Senhor volva o seu rosto para ti e te dê a paz!”

O rei Davi relaciona coisas que são, aparentemente, díspares: a felicidade com a luz de Deus. Parece-nos que a felicidade tem a ver com outras coisas, tais como prosperidade, saúde, alegria… Mas tanto numa quanto noutra passagem a felicidade (e também a paz) não somente estão relacionadas como dependem mesmo do rosto de Deus, do seu voltar-se sobre nós, do seu olhar sobre nós, suas criaturas.

Na leitura dos santos e místicos da Igreja fica mais fácil compreender o que o salmista e o profeta querem dizer com isso, o tipo de experiência a que se referem. Pois, sim, trata-se de uma experiência real de provar o olhar favorável de Deus sobre si – o que é totalmente diferente de experimentar, por exemplo, o recebimento de uma bênção material (embora seja bênção vinda do Senhor). Quando Deus “volve o seu rosto” ou “faz brilhar sobre nós a luz da sua face” nos tornamos, concretamente, alvos do seu amor de um modo incomparável. E é por isso que a felicidade e a verdadeira bênção estão diretamente ligados ao rosto de Deus, ao seu olhar, e a nada mais. E é por isso que os contemplativos são os mais felizes, pois vivem continuamente em busca desse maravilhoso olhar.

Contudo, não é preciso que estejamos num cume da vida espiritual para compreendermos a veracidade do que nos diz a Sagrada Escritura e o testemunho dos santos, basta que pensemos em nossos filhos. Quantas vezes eles não nos pedem para que olhemos para eles: “Olha, mãe! Olha, pai!”, “Olha só!”, “Olha aqui pra mim!”? E é só isso o que eles de fato querem, que olhemos para eles e os enxerguemos, que os vejamos, que contemplemos quem eles são, muito mais do que aquilo que eles fazem (o que eles fazem para nos impressionar é só uma desculpa que para olhemos para eles), não é verdade? Se, por um lado, os recursos naturais com que os cercamos promovem a sua subsistência física, o nosso olhar, a nossa atenção, a luz que derramamos sobre eles quando voltamos o rosto na sua direção promovem a sua subsistência psíquica. É como se, no fundo dos seus corações, eles passassem a saber: “Eu existo! Eu tenho importância! Eu sou alvo do amor de minha mãe/meu pai!” E isso é muito diferente de saber-se resultado do amor, de saber-se criatura: é saber-se filho, de fato. Mas quantas vezes nos dispomos a isso? Quantas vezes o fazemos de maneira atenta, amorosa, realmente entregue à contemplação de quem eles são? Quantas vezes focamos em aspectos de suas pessoas e não em sua essência?

Teses psicológicas foram escritas afirmando a importância do olhar, sobretudo o materno, para a formação da personalidade da criança*. Mas não é preciso recorrer a outras autoridades para compreendermos tudo isso, basta imaginarmos o que é ser alvo do olhar do Deus que é puro amor, cuja misericórdia excede os céus… aquele mesmo Deus que entregou Seu filho por amor de nós. Ser alvo deste olhar, ser iluminado pela sua infinita bondade é passar a existir de uma maneira toda nova, é passar a desfrutar de uma posição muito mais íntima e amorosa diante de Deus, é saber-se filho.

Que consigamos oferecer às nossas crianças esta primeira experiência da verdadeira felicidade, que possamos olhá-las e enxergá-las realmente, que possamos iluminá-las com a bondade do nosso semblante e imprimir em seus corações a certeza de que ainda melhor, ainda mais amoroso e generoso é o próprio Deus.

*Confira Winnicott.

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A repetição da maior e melhor novidade

Quando eu era garota e atéia, detestava essa época do ano. Na verdade, o sentido do Natal me escapava por completo, tudo parecia uma grande desculpa do comércio – para ganhar dinheiro – e das famílias – para alimentar hipocrisias -, repetindo anualmente os seus rituais de auto-legitimação. Sim, eu já pensei e fui assim. E todo ano, por vários anos, detestava a repetição do Natal.
De certa forma, é verdade que o Natal é uma repetição. E bem pode ser verdade que muita gente só pense em lucrar ou em suportar diplomaticamente o convívio com parentes inconvenientes – quantas Camilas há por aí! Contudo, o sentido da repetição exprime-se em outros termos: “até que Ele venha”. É por isso – hoje eu sei – que tudo se repete: para que jamais O esqueçamos, porque Ele virá mais uma vez, conforme prometido. Assim, enquanto Ele não vem, prosseguimos repetindo, ano após ano, guiados pelo Calendário litúrgico, cada um dos passos de sua vida, desde a sua concepção e nascimento até sua morte e ressurreição.
Mas que novidade pode haver nisso tudo, uma festa celebrada há mais de dois milênios? A novidade é o nascimento do divino bebezinho. É Ele – e só Ele -, com o seu nascimento, que é capaz de fazer novas todas as coisas. Não do nosso jeito, nós que cortamos cabelos, compramos roupas, viajamos, fazemos dietas, exercícios e achamos – ou melhor, “desejamos ansiosamente” não soa mais preciso? – que por causa disso somos novas pessoas. Não. Ele faz nova todas as coisas desde dentro, silenciosa e imperceptivelmente, desde o lugar mais oculto e afastado dos olhos, que é o nosso coração. Quando este maravilhoso bebezinho nasce em nossos corações, então Ele traz a redenção tão aguardada, a novidade de vida tão esperada e tão necessária. Ele faz novas todas as coisas!
Parece impossível, parece irreal, parece mágica… O nome mais adequado, no entanto, é milagre. O milagre da fé, a fé que crê em um Deus que se fez homem e habitou entre nós com toda a humildade, para, descendo até nossa humilhante condição de completo desamparo, resgatar-nos e transformar-nos à semelhança de sua excelsa pessoa. Esta é a repetição da melhor e maior novidade celebrada a cada Natal.
Que o menino Jesus nasça em nossos corações e renove ainda mais a nossa vida, mais uma vez.
Um feliz e santo Natal,
da minha para a sua família.
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Nosso balanço de 2017

Que palavra eu poderia usar para definir este ano que se encerra? Foram tantas e tão diferentes coisas que uma única palavra não encerra tudo o que nele ocorreu. Certamente, porém, não foi o mais produtivo em se tratando dos estudos das crianças. Fiquei muito aquém do que gostaria, preciso confessar. Mantivemos o básico do básico: as leituras de estudo da Chloe, as aulas de piano, intensivos de latim (graças ao prof. Rafael Falcón), a alfabetização do Benjamin, e, eventualmente, aulas de matemática para ambos. Do meio para o fim do ano, Gustavo retomou as aulas de história e passou a ministrar a catequese ao Bibi.

Isto que é uma das grandes vantagens do HS, a vivência e o convívio familiar, por vezes traz também dificuldades: em decorrência da grande quantidade de trabalho que surgiu, igualmente feito em casa e igualmente realizado por mim e pelo Gustavo, acabamos não conseguindo manter o ritmo das aulas das crianças. Para mim, isso foi muito frustrante e desanimador, mas em lugar de chorar sobre o que está feito, convém aprender com os erros, reavaliando nossas limitações e reorganizando a rotina mais uma vez.

No entanto, apesar de tudo, conquistamos uma grande vitória familiar, isto é, nossa vida espiritual, enquanto família, com a maravilhosa graça de Deus, galgou mais um degrau. Sim, pois se nos falta tempo, é preciso priorizar: decidimos buscar primeiro o Reino e a sua justiça, na esperança de que tudo o mais nos seria acrescentado. Tanto eu quanto Gustavo já tínhamos nossas rotinas e práticas individuais de devoção, de modo que a única coisa que fazíamos em família – todos juntos – no tocante ao crescimento espiritual eram, além da frequência às Missas, as orações antes das refeições e as orações noturnas. Assim, mudamos, paulatinamente, nossas práticas familiares, inserindo pouco a pouco elementos que acabaram se tornando decisivos a todos nós. Como disse acima, algumas dessas atividades já eram feitas individualmente, contudo, o fato de passarem ser realizadas junto com as crianças acabou conferindo uma regularidade extremamente frutuosa, além de fixar mais um momento de comunhão familiar.

A primeira modificação foi a inserção de uma oração matinal espontânea, onde agradecíamos pela noite tranquila, por mais um dia de vida, pedíamos a Deus sua condução, entre outras coisas. Algum tempo depois, vendo o interesse das crianças na vida dos Santos, passamos a ler sempre, também pela manhã, a história do Santo do dia (utilizamos os dois volumes de Na luz perpétua), então seguida pelas orações. Passado algum tempo, inserimos a recitação do terço ao final da tarde. E aqui é importante fazer algumas observações: os mais novos, Nathaniel e Philomena, não rezam de fato, mas ficam junto conosco, em nossos braços, ou ao nosso redor, ouvindo nossas preces, memorizando-as e habituando-se àquela rotina espiritual. Ou seja, eles não ficam em outro cômodo ou brincando de outra coisa. É a hora de falar com Nosso Senhor e com Nossa Senhora e, embora não tenham uma grande capacidade de concentração, já têm condições de, aos pouquinhos, ir internalizando algum senso de reverência. Quanto aos maiores procuramos dar-lhes a conhecer as passagens dos Evangelhos correspondentes a cada mistério do dia – principalmente ao Benjamin, pois Chloe já conhece toda a história.

Assim, embora não tenhamos cumprido um programa propriamente dito, o fato de termos priorizado o que é realmente mais importante e buscado realizar, na medida do possível, as demais coisas, redundou em uma profusão de graças que nos fez avançar efetivamente: Benjamin não só foi alfabetizado como aprendeu sozinho a discernir as letras minúsculas do alfabeto de forma (eu havia ensinado apenas as maiúsculas), e já lê qualquer coisa que não esteja em letra cursiva; além disso, apesar das poucas aulas, dominou facilmente adição, subtração e frações; já a Chloe deslanchou no piano (e isso também graças a vocês, que contribuíram para a rifa que nos permitiu presenteá-la com um piano de parede), cumpriu todo o cronograma de leituras (que inclui também um fichamento detalhado das obras,), consolidou todo o nível básico do latim e venceu algumas dificuldades matemáticas; Nathaniel finalmente começou a descompactar a fala, a acertar as cores e já identifica todas as vogais, seu som e as escreve também.

Enfim, este não é um post de tipo impressionante, de conquistas retumbantes, de listas imensas e suadas conquistas. Como disse, ficamos aquém, mas, muitas vezes, para avançar realmente é preciso, antes, retroceder um pouco, fortalecendo aquilo que é essencial: a nossa fé. Agradeço muito a Deus pelo desafio de não vencer naquilo que julgava importante para conseguir perceber a preciosidade daquilo que não estava sendo buscado como deveria e que é verdadeiramente indispensável.

Que Deus abençoe a todos nós e continue a nos guiar, em 2018, pelo caminho estreito do seu amor!

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Leituras de janeiro

Há um ano atrás, quando começamos nosso primeiro clube do livro, não podíamos imaginar os rumos que seguiríamos após tão pouco tempo transcorrido. Agora, não só prosseguimos com o trabalho n’A casa de Penélope, como também, atendendo aos pedidos das associadas, criamos o Clubinho Literário, voltado para crianças entre 6 e 10 anos. Como é bom crescer!

Mas, para quem está chegando agora, aqui vai um resumo das nossas propostas:

A casa de Penélope

Este é um clube de literatura nascido do meu desejo de partilhar um pouco do caminho que vinha trilhando solitariamente. Em resposta ao desafio de um sacerdote, esforcei-me por encontrar tempo para investir em meu aprimoramento pessoal, buscando por títulos que me auxiliassem a melhor compreender e desempenhar minhas diferentes funções enquanto esposa, mãe, etc. Assim, A casa de Penélope é um clube voltado exclusivamente para mulheres, com carga anual de seis obras, selecionadas de acordo com o tema do ano, e cada uma delas trabalhada ao longo de dois meses. O próximo tema, a ser trabalhado em 2018, é a maternidade, de modo que leremos obras que, de algum modo, nos dão ocasião de vislumbrar os melhores e piores modelos, para que nos inspiremos nos primeiros e nos curemos dos segundos. Além dos livros, há amplo material de apoio (guia de leitura, newsletters) e ainda espaços para discussão e interação (grupo fechado e hangouts) entre as associadas.

Clubinho Literário
Já o Clubinho, como disse acima, é uma resposta ao pedido de algumas mães participantes d’A casa de Penélope que, vendo os benefícios que as leituras proporcionavam às suas vidas, desejavam algo que trouxesse semelhantes benefícios aos seus filhos. A dinâmica do Clubinho é um pouco diferente, no entanto: selecionamos doze obras, uma para cada mês do ano, privilegiando títulos edificantes e virtuosos. O critério para esta seleção foi, basicamente, o seguinte: primeiro, não escolher obras que meus próprios filhos não tivessem apreciado; segundo, dentre as obras prediletas deles, priorizar aquelas que oferecessem ferramentas para educação da linguagem, educação do imaginário e educação moral. Ou seja, não basta que o livro seja divertido, mas é necessário que ele expanda o vocabulário infantil, sua imaginação e, sobretudo, seu conhecimento das virtudes humanas. Além dos livros, também produzimos material de apoio (guia de leitura e newsletter) e a possibilidade de contato virtual entre os participantes (por meio do e-mail dos pais).
Se você tem interesse em qualquer uma de nossas propostas, clique nos links, informe-se e venha crescer conosco. O prazo para participação em janeiro de 2018 encerra dia 27 deste mês de novembro!

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O primeiro encontro d’A casa de Penélope

Um grande evento nunca começa na data prevista, mas muito antes. Contássemos a partir do dia em que surge a idéia, às vezes muitos anos são passados até a sua realização. Este, contudo, não é exatamente o nosso caso. O primeiro encontro presencial d’A casa de Penélope foi preparado ao longo de um ano, o primeiro ano de existência do próprio clube. Mas não foi nada difícil. Pelo contrário: tudo pareceu fluir maravilhosamente bem, desde a escolha do local, o acerto dos detalhes, a realização do evento em si até a despedida. E é sobre tudo isso que eu desejo falar agora.
Primeiro, o local. Como não mencionar a querida Pousada Aldeia dos Sonhos, que faz jus ao nome que carrega? Ricardo e João, os proprietários, são a gentileza e o zelo em forma humana: não só ofereceram excelentes ambientes e acomodações como ainda contribuíram sugerindo boas idéias para facilitar a dinâmica e integração do grupo. Isso para não mencionar o famoso (e delicioso) café da manhã, que nos transporta de volta para a cozinha e o colo de nossas prendadas avós. Enfim, nem eu, nem as Penélopes tivemos o quê reclamar do lugar onde realizamos nosso primeiro encontro, e, ao que tudo indica, repetiremos a dose em outubro do ano que vem.
Depois, o sábado pela manhã, o primeiro encontro do encontro. Este foi o momento do primeiro contato pessoal com a maioria das Penélopes: que alegria poder encontrá-las assim, cara a cara, depois de tantos e-mails, chats e hangouts, e poder abraçá-las! Foram instantes de alegria e emoção. Interessante notar que apesar de todas as novidades, em nenhum momento percebi aquele desconforto habitual que ocorre nas reuniões de pessoas desconhecidas, mas, apesar da incipiente familiaridade, um clima acolhedor e fraterno parecia pairar sobre nós. Em seguida Gustavo tomou a palavra e nos ofereceu uma pequena palestra sobre alguns personagens masculinos das obras que lemos até o momento (Petruchio, Charles Bovary e Admeto), acrescentando ainda algumas considerações sobre Ulisses, o marido de Penélope, da Odisséia, personagem que inspirou o nome do clube. Foi ocasião para refrescar a memória, enfatizar questões importantes sobre os papéis dos cônjuges e também integrar um pouco mais os maridos presentes no grupo.
Ao meio-dia corremos para um restaurantezinho de comida boa, bonita e barata no centro de Canela e tivemos diversos momentos de bate-papo descontraído.
À tarde, depois de algumas horinhas livres, voltamos à aconchegante sala de reuniões e ouvimos, com muito prazer e durante mais de uma hora, o prof. Rafael Falcón falando sobre literatura para crianças, alfabetização e educação. Mesmo as Penélopes que ainda não são mães saíram extremamente enriquecidas, pois ouvir o prof. Rafael foi uma daquelas preciosas oportunidades para avaliar nossa própria educação e buscar corrigir os erros e falhas da formação, além, obviamente, das muitas indicações para a educação das crianças. Mas a conversa não parou na palestra: fomos ao (delicioso) coffee break e prosseguimos quase até ao anoitecer conversando e convivendo muito. Que momentos! Nada de conversas miúdas, pueris e “para socializar”: todos falando com o coração nas mãos, remindo o tempo, aproveitando a raridade que é o ter interlocutores sinceros e interessados naquilo que realmente importa e é digno de nota durante nossa curta vida.

Convém mencionar que algumas Penélopes vieram com maridos e filhos, de modo que as crianças brincaram tranquilas durante todo o tempo na casa que elas batizaram de “casinha da Laura” (em referência à Laura Ingalls Wilder, pois a casa era toda de madeira e repleta de objetos e utensílios antigos). Ou seja, toda a família pôde aproveitar sossegadamente.
No domingo pela manhã fomos à igreja e, depois, tomamos, todos juntos, o café da manhã na Pousada. Foi o momento da “DR” do clube, onde pedi às meninas que criticassem nosso trabalho e nos ajudassem a melhorar. Não minto ao dizer que elas nada tiveram a reclamar, mas, na verdade, revelaram que o clube superou todas as expectativas. Recebi minha medalha imaginária nessa hora! Hahahaha Levantamos da mesa (finalmente!) e fomos tirar fotos e continuar a conversa na recepção da Pousada. Parecia que ninguém queria ir embora, pois emendávamos um assunto no outro, orbitando sempre, porém, sobre as questões de família, fé e educação. Foi um tempo totalmente espontâneo de compartilhamento de vida, de experiências e de mútua edificação. Daí em diante algumas já retornaram às suas cidades. À tarde passeamos, com aquelas que ainda ficaram mais um pouco, no Castelinho Caracol e tivemos algumas boas horas juntos.

Por fim, voltamos para casa, eu e minha família, ao fim da tarde, completamente mortos de cansaço (eu e Gustavo, no caso), mas muito gratos a Deus por esse tempo de crescimento compartilhado, comovidos com as tantas demonstrações de carinho que recebemos (quantos presentes lindos!) e felizes pelos vínculos criados e estreitados neste final de semana que passou voando.

Tenho plena ciência de que minhas palavras não fazem justiça ao primeiro encontro. Mais adequado seria se as próprias Penélopes dissessem o que acharam. De todo modo, porém, fica aqui o registro desse momento especial que encerra o primeiro ano de atividades d’A casa de Penélope, e fica também o convite para que você venha participar conosco, presencial ou virtualmente, no próximo.

As inscrições para participar das leituras de 2018 já estão abertas. Confira aqui. Não perca tempo (nem o prazo)!

Abaixo, algumas fotinhos.

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Outubro imperdível

Materiais gratuitos 
Quem tem ouvido falar sobre A casa de Penélope poderá conhecer melhor e gratuitamente o trabalho que temos desenvolvido no clube. Basta cadastrar o email (período de inscrições encerrado) para receber durante quatro dias, de 24 a 27 de outubro, um conteúdo exclusivo a respeito de um dos livros que lemos até o momento n’A casa: poderá ser um guia de leitura, uma newsletter, um hangout… Assim, se houver ainda alguma dúvida sobre se vale ou não a pena participar, certamente será sanada. 😉

Cursos com descontos
Como temos recebido muitos pedidos de ajuda, por emails e por mensagens, a respeito do homeschool, resolvemos antecipar nossa promoção de final de ano para o dia 12 deste mês, e oferecer os cursos “Homeschooling 1.0” e “De volta ao lar” com 50% de desconto. Será uma promoção relâmpago que durará apenas um dia, então fiquem atentos!

Novas assinaturas com bônus
Aqueles que quiserem garantir a participação desde o início de 2018 no ainda inédito Clubinho Literário, ao realizar sua inscrição receberão nosso curso “Ensine seus filhos a gostar de ler” gratuitamente. Já aquelas que se inscreverem n’A casa de Penélope receberão, sem custo algum, todo o material digital referente ao livro Madame Bovary, que foi a quarta leitura do Ano da esposa.
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Nota sobre metodologias em HS

Todos os dias recebo e-mails e mensagens de pessoas que recém descobriram o homeschool, apaixonam-se pela proposta e desejam colocar as mãos na massa assim que terminarem de ler minha resposta. São pessoas que já perceberam que o cerco se fecha cada vez mais rapidamente contra as escolas – pois aquelas que não assumem a agenda revolucionária explicitamente, acabam se tornando alvos de seus agentes -, pessoas que são movidas das melhores intenções e, no entanto, precipitam-se. 

Infelizmente é possível agir pelos motivos certos mas empregando os meios errados. Para citar apenas um exemplo, menciono o que o ocorreu a uma mãe recentemente: tirou sua filhinha da escola sem maiores explicações e, em poucos dias, foi denunciada ao Conselho Tutelar. Tomada de medo e confusão, pedia ajuda num dos muitos grupos sobre o assunto. Se ela tivesse, antes de retirar a criança da escola, pesquisado a fundo, por uma semana que fosse, a respeito das possíveis consequências de sua atitude, teria abreviado em muito seus tormentos.

Mas o assunto aqui é outro, então volto a ele. Os pais e mães recém chegados ao homeschool acreditam muitas vezes que já há uma ampla rede de apoio à prática em nosso país, onde encontrarão associações, sites, e, sobretudo, metodologias e materiais didáticos específicos prontos a serem usados. A maioria se surpreende quando descobre que a nossa realidade é ainda bastante rudimentar: uma única associação, uma infinidade de blogs de famílias, metodologias híbridas e materiais didáticos improvisados – exceto àqueles que têm condições de importar seus livros do exterior. Todavia, meu propósito não é desestimular aqueles que acabam de se aproximar, mas, além de oferecer-lhes um panorama realista da situação, suscitar-lhes uma reflexão necessária.
Antes de decidir-se por uma das muitas metodologias disponíveis à prática da educação domiciliar — para citar algumas, meciono a escolarizada, a clássica, a temática e o unschooling, por exemplo — é preciso que uma coisa fique muito clara: cada pai e cada mãe homeschooler deverá adotar uma postura ativa no processo de ensino dos filhos. Em outras palavras, você pode ter o melhor material didático, o mais completo, o de mais fácil aplicação, e, no entanto, por mais incrível que pareça, isso não garantirá o bom rendimento do seu filho, pois não é somente o conteúdo abordado, mas principalmente o modo como você o abordará que fará toda a diferença. E só um pai e uma mãe atentos e pacientes saberão utilizar as ferramentas disponibilizadas pelo método adotado de uma maneira verdadeiramente proveitosa.

Metodologias são ferramentas, são estratégias, caminhos encetados na busca pela obtenção de determinado fim. Ou seja, entregar à criança as ferramentas certas, mas sem ensiná-la a usar é quase tão contraproducente quanto ofertar-lhe as ferramentas erradas. Metodologias não substituem pessoas. E, no homeschool, os pais são essenciais, principalmente quando as crianças ainda são pequenas ou não sabem estudar por conta própria.

Assim, queridos pais, não se iludam achando que existe um atalho neste caminho de método de ensino e materiais didáticos para homeschool. Melhor dizendo, o único atalho que existe é aquele em que você se oferece como mediador atento e bem disposto, capaz de observar os talentos e fortalecê-los, bem como ajudar na superação das dificuldades, usando de toda a sabedoria disponível em si para fazer cada filho florescer, empreendendo todas as mudanças, adaptações, repetições e inovações necessárias para isso. A outra opção é deixá-lo seguir pelo caminho mais longo e mais solitário.

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A importância das boas músicas

Tem se tornado cada vez mais difícil passar por aqui e compartilhar coisas que acho que são úteis ou importantes para as famílias homeschoolers. São muitos os projetos nos quais estamos envolvidos, e há ainda novas coisas surgindo, por isso, pela necessidade de priorizar, o blog, que foi o começo de tudo, acaba ficando para trás. Ainda assim, porém, quero compartilhar com vocês algumas coisas bonitas que temos usado e feito por aqui.

Eu e Gustavo, na vida adulta, nunca fomos apreciadores de músicas populares. Sempre que colocamos alguma música, ou é clássica, ou é sacra. Raras vezes Gustavo varia um pouco o repertório acrescentando alguma música regional gaúcha ao menu. Por isso, desde sempre, nossos filhos foram acostumados com boas músicas, ainda que não saibam os nomes dos compositores/autores e das músicas, pois fazemos tudo de maneira muito tranquila e informal.


Assim, vindo a complementar um pouco mais esse hábito, recebemos de uma amiga a indicação de um excelente livro que agora passo adiante para vocês. O llivro é A música erudita, de Ibrahim Abrahão Chaim. 

Obviamente a obra não é completíssima, pois, como em toda seleção, alguns autores ficam de fora, mas vejam vocês como os temas abordados realmente suprem muitas carências, pois fazem conhecidas coisas que, para quem é leigo, podem soar bastante difíceis de entender. Chloe têm adorado e já leu boa parte dele.

Além do livro, recomendo ainda um cd disponível no archive.org chamado A Child’s Introduction to the Orchestra onde há uma música para apresentação de cada um dos instrumentos. É perfeito para quem não conhece ou não consegue distinguir os sons deles, mas, sobretudo, é divertido para as crianças menores.

Para quem ainda não entende a importância de ensinar esse tipo de coisa às crianças, ou melhor, para quem não entende a importância de expô-las a boas músicas e protegê-las dos lixos sonoros que nos cercam, deixo aqui um trechinho de uma aula do prof. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto na qual ele explica melhor a questão.

Por último, deixo ainda uma sugestão que alia boa música a desenhos antigos: escreva Silly Simphony Compilation no youtube, escolha um álbum e divirtam-se. Ainda não assistimos todos aqui em casa, mas dos que vimos, gostamos. São fábulas clássicas musicadas, ou então histórias bobinhas com músicas incríveis. O único que não deixo as crianças assistirem é o The Skeleton Dance. Então, pais, antes de colocarem as crianças a assistir, assistam primeiro, por favor, e vejam o que é e o que não é adequado a elas, ok?

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Abertura à vida: plena confiança em Deus

Não é novidade que eu e meu marido temos quatro filhos. Mas talvez seja novidade para quem nos acompanha há pouco tempo que somos abertos à vida, isto é, que não fazemos nenhum planejamento familiar, não adotamos controle algum de natalidade, nem artificial, nem natural. Em outras palavras, não, a fábrica não fechou, para horror dos parentes, amigos, inimigos, médicos e ativistas por um mundo melhor – todos aqueles que, graças a Deus, não pagam nossas contas.

E por falar em contas, ao contrário do que se possa pensar, nossa decisão não tem absolutamente nada a ver com questões financeiras. Não, nós não somos ricos – e não somos mesmo, diferentemente daqueles que dizem isso para posar de modestos e são hipócritas, pois têm todas as garantias possíveis para viver uma vida tranquila. “Mas minha nossa, que irresponsabilidade!”, muitos de vocês devem estar pensando, e, bem, este é um modo de ver as coisas, mas não o nosso.

Nós somos cristãos e acreditamos que toda a vida é fruto da vontade de Deus. Sim, bem assim mesmo, bem “medieval” mesmo – como adoram xingar os modernosos, e como se isso fosse de fato um xingamento. Não achamos que a vida é um mero fato biológico, fruto da combinação de óvulo e espermatozóide pura e simplesmente. Admitir algo assim seria assumir uma visão mecanicista da criação, onde Deus teria apertado um botão de “start” lá no início dos tempos e depois largado tudo, deixando por nossa conta e risco todo o resto. Não pensamos assim.

Sabemos que Deus vive e age hoje, agora, neste instante e em todos os demais, em todos os lugares; acreditamos que se Ele não disser “faça-se a luz!”, vida alguma surge e se mantém, por mais jovem, saudável e fértil que se possa ser – quem não conhece pessoas que, mesmo sem problema orgânico algum, não conseguem engravidar? E quem não conhece ao menos um caso de vida que surgiu de quem menos se achava possível? – Sei que isso soa estranho – às vezes apavorante -, até mesmo entre cristãos, mas ou Deus governa nossas vidas por completo, incluindo nossos bolsos e corpos, ou lançamos mão de qualquer desculpa para nos considerarmos muito maduros e responsáveis, fugindo da plena entrega e confiança para a qual Ele não cessa de nos chamar.

Aos que repetem o chavão “botar filho no mundo é fácil; quero ver criá-los”, afirmo: de fato, seríamos os mais levianos e sem-vergonhas se, invocando a Deus sobre a geração de nossos filhos, não O invocássemos também para que nos desse todo amor, sabedoria e condições para bem criá-los. Abrir-se a receber todos os filhos que Ele nos enviar não é uma disposição satisfeita quando abrimos mão do anticoncepcional, da camisinha ou do MOB, deitamos, amamos e levantamos da cama: ali é só o começo de tudo, o início de uma jornada de santificação que deve conduzir à eternidade. Assim, acreditamos que a abertura à vida só é real quando nos dispomos a confiar o tanto que Ele espera que confiemos; só é real quando nos dispomos a servir o tanto que Ele deseja que sirvamos; só é real quando nos dispomos a morrer para nós mesmos o tanto que Ele deseja que nós morramos; e tais medidas só quem as sabe é Ele, não nós. 
 
Será que realmente acreditamos em Jesus quando disse que nem sequer um mísero fio de cabelo cai da nossa cabeça sem que Deus o saiba e permita? Se Ele é capaz de conhecer e zelar por coisa tão indiferente como um fio de cabelo, não o seria ainda muito mais pelas vidas que sopra nos ventres maternos e pelas nossas próprias vidas? Senhor, aumenta nossa fé!