Posted on 2 comentários

Bonitos por causa de Deus

“Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. […] Deus contemplou toda a sua obra e viu que tudo era muito bom.” Gênesis 1, 27, 31a.

Ontem à noite Chloe perguntou-me em qual época de minha vida eu me achava mais bonita: se quando mais jovem, ou agora, mais velha. Respondi-lhe que, sem dúvida, quando mais jovem meu corpo era mais bonito e tudo nele funcionava melhor, contudo, eu não tinha olhos bons para apreciar o que era, de modo que passei boa parte da minha juventude sofrendo em busca de aceitação (dos outros e minha própria). Agora, por outro lado, disse-lhe eu, o amor de seu pai, enquanto ferramenta do amor de Deus, e o amor do próprio Deus me haviam curado de tal maneira que, mesmo já não sendo mais tão jovem, estava plenamente satisfeita com meu corpo, pois conseguia enxergá-lo como uma obra de Deus.

Conversamos muito mais, obviamente, mas de tudo o que dissemos, talvez o mais importante seja aquilo que creio que consegui comunicar-lhe: o fato de que a insatisfação e a busca por uma perfeição física sempre inatingível (pois sempre se redefine e muda de foco) é uma cilada do diabo.

Não é preciso ser muito esperto para saber que a maioria de nós não é composta de beldades. Ou seja, é verdade que poderíamos ser mais assim ou mais assados. Contudo, quando começamos a fazer esse exercício de pensar naquilo que poderíamos modificar em nossos corpos (seja através de dietas, de exercícios, de massagens, de maquiagens, de roupas ou de cirurgias) para nos adequarmos a um padrão que sequer sabemos de onde vem e por que existe, somos aprisionados dentro de um circuito infindável de “defeitos vs. busca por soluções”. E, enquanto isso, a vida de verdade passa, e nós seguimos sempre insatisfeitos e loucos como cachorros atrás do próprio rabo, mendigando a aprovação dos outros e em guerra contra nós mesmos.

Disse-lhe também que todo esse esforço não passa, no fundo, de uma revolta contra Deus, de rejeição da Sua vontade expressa na forma que possuímos e, portanto, de algo fomentado pelo próprio inferno para manter-nos distraídos do que realmente importa, isto é, a Eternidade. Afinal, passados mais alguns anos, para que servirá este corpo miserável senão para alimentar os vermes? Não o levaremos, nem a ele nem nada do que possuímos materialmente, para o céu. Vale mesmo a pena tudo isso?

Por outro lado, quando reconhecemos nossas imperfeições constitutivas como parte do maravilhoso e misterioso plano de Deus para nossas vidas, quando nos submetemos graciosamente à Sua vontade, quando agradecemos pelo que temos e somos, quando, enfim, reconhecemos o Seu imenso amor por nós, expresso também por meio daqueles que nos amam sabendo dos nossos defeitos e limitações, então somos curados, então as escamas caem dos nossos olhos, então vemos a beleza que há em tudo o que Deus faz, então somos libertos, então descansamos e nos alegramos, cheios de gratidão.

E isso nada, absolutamente nada tem a ver com viver à moda desregrada, entregando-se a todo e qualquer deleite físico. Pelo contrário: o amor de Deus nos “aprisiona” a Ele, de modo que tudo o que fazemos, inclusive o cuidado elementar com a conservação da própria vida, é feito com o pensamento voltado para Ele, buscando agradá-Lo. Se me entrego à indolência e ao meu próprio prazer, então caio no outro extremo: saio da neurose da busca do corpo ideal para a lassidão da irresponsabilidade e do desleixo.

Que cada mulher cristã que lê este texto (e homem também) possa descobrir-se como pessoa especialmente desejada e planejada por Deus, pois cada vida trazida ao mundo é a renovação da Sua criação. E, como no Éden, o Senhor olha para cada criatura Sua e diz: é muito bom.

Posted on Deixe um comentário

A verdadeira felicidade

O Salmo de hoje (4, 6) nos diz:

“Dizem muitos: ‘Quem nos fará ver a felicidade?’

Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face.”

Meditando a respeito, lembrei-me de uma outra passagem, a chamada bênção de Aarão (Num 6, 25 e 26) com a qual Moisés ensinou o sacerdote a abençoar o povo de Israel:

“O Senhor te mostre a sua face e conceda-te sua graça!

O Senhor volva o seu rosto para ti e te dê a paz!”

O rei Davi relaciona coisas que são, aparentemente, díspares: a felicidade com a luz de Deus. Parece-nos que a felicidade tem a ver com outras coisas, tais como prosperidade, saúde, alegria… Mas tanto numa quanto noutra passagem a felicidade (e também a paz) não somente estão relacionadas como dependem mesmo do rosto de Deus, do seu voltar-se sobre nós, do seu olhar sobre nós, suas criaturas.

Na leitura dos santos e místicos da Igreja fica mais fácil compreender o que o salmista e o profeta querem dizer com isso, o tipo de experiência a que se referem. Pois, sim, trata-se de uma experiência real de provar o olhar favorável de Deus sobre si – o que é totalmente diferente de experimentar, por exemplo, o recebimento de uma bênção material (embora seja bênção vinda do Senhor). Quando Deus “volve o seu rosto” ou “faz brilhar sobre nós a luz da sua face” nos tornamos, concretamente, alvos do seu amor de um modo incomparável. E é por isso que a felicidade e a verdadeira bênção estão diretamente ligados ao rosto de Deus, ao seu olhar, e a nada mais. E é por isso que os contemplativos são os mais felizes, pois vivem continuamente em busca desse maravilhoso olhar.

Contudo, não é preciso que estejamos num cume da vida espiritual para compreendermos a veracidade do que nos diz a Sagrada Escritura e o testemunho dos santos, basta que pensemos em nossos filhos. Quantas vezes eles não nos pedem para que olhemos para eles: “Olha, mãe! Olha, pai!”, “Olha só!”, “Olha aqui pra mim!”? E é só isso o que eles de fato querem, que olhemos para eles e os enxerguemos, que os vejamos, que contemplemos quem eles são, muito mais do que aquilo que eles fazem (o que eles fazem para nos impressionar é só uma desculpa que para olhemos para eles), não é verdade? Se, por um lado, os recursos naturais com que os cercamos promovem a sua subsistência física, o nosso olhar, a nossa atenção, a luz que derramamos sobre eles quando voltamos o rosto na sua direção promovem a sua subsistência psíquica. É como se, no fundo dos seus corações, eles passassem a saber: “Eu existo! Eu tenho importância! Eu sou alvo do amor de minha mãe/meu pai!” E isso é muito diferente de saber-se resultado do amor, de saber-se criatura: é saber-se filho, de fato. Mas quantas vezes nos dispomos a isso? Quantas vezes o fazemos de maneira atenta, amorosa, realmente entregue à contemplação de quem eles são? Quantas vezes focamos em aspectos de suas pessoas e não em sua essência?

Teses psicológicas foram escritas afirmando a importância do olhar, sobretudo o materno, para a formação da personalidade da criança*. Mas não é preciso recorrer a outras autoridades para compreendermos tudo isso, basta imaginarmos o que é ser alvo do olhar do Deus que é puro amor, cuja misericórdia excede os céus… aquele mesmo Deus que entregou Seu filho por amor de nós. Ser alvo deste olhar, ser iluminado pela sua infinita bondade é passar a existir de uma maneira toda nova, é passar a desfrutar de uma posição muito mais íntima e amorosa diante de Deus, é saber-se filho.

Que consigamos oferecer às nossas crianças esta primeira experiência da verdadeira felicidade, que possamos olhá-las e enxergá-las realmente, que possamos iluminá-las com a bondade do nosso semblante e imprimir em seus corações a certeza de que ainda melhor, ainda mais amoroso e generoso é o próprio Deus.

*Confira Winnicott.

Posted on Deixe um comentário

A repetição da maior e melhor novidade

Quando eu era garota e atéia, detestava essa época do ano. Na verdade, o sentido do Natal me escapava por completo, tudo parecia uma grande desculpa do comércio – para ganhar dinheiro – e das famílias – para alimentar hipocrisias -, repetindo anualmente os seus rituais de auto-legitimação. Sim, eu já pensei e fui assim. E todo ano, por vários anos, detestava a repetição do Natal.
De certa forma, é verdade que o Natal é uma repetição. E bem pode ser verdade que muita gente só pense em lucrar ou em suportar diplomaticamente o convívio com parentes inconvenientes – quantas Camilas há por aí! Contudo, o sentido da repetição exprime-se em outros termos: “até que Ele venha”. É por isso – hoje eu sei – que tudo se repete: para que jamais O esqueçamos, porque Ele virá mais uma vez, conforme prometido. Assim, enquanto Ele não vem, prosseguimos repetindo, ano após ano, guiados pelo Calendário litúrgico, cada um dos passos de sua vida, desde a sua concepção e nascimento até sua morte e ressurreição.
Mas que novidade pode haver nisso tudo, uma festa celebrada há mais de dois milênios? A novidade é o nascimento do divino bebezinho. É Ele – e só Ele -, com o seu nascimento, que é capaz de fazer novas todas as coisas. Não do nosso jeito, nós que cortamos cabelos, compramos roupas, viajamos, fazemos dietas, exercícios e achamos – ou melhor, “desejamos ansiosamente” não soa mais preciso? – que por causa disso somos novas pessoas. Não. Ele faz nova todas as coisas desde dentro, silenciosa e imperceptivelmente, desde o lugar mais oculto e afastado dos olhos, que é o nosso coração. Quando este maravilhoso bebezinho nasce em nossos corações, então Ele traz a redenção tão aguardada, a novidade de vida tão esperada e tão necessária. Ele faz novas todas as coisas!
Parece impossível, parece irreal, parece mágica… O nome mais adequado, no entanto, é milagre. O milagre da fé, a fé que crê em um Deus que se fez homem e habitou entre nós com toda a humildade, para, descendo até nossa humilhante condição de completo desamparo, resgatar-nos e transformar-nos à semelhança de sua excelsa pessoa. Esta é a repetição da melhor e maior novidade celebrada a cada Natal.
Que o menino Jesus nasça em nossos corações e renove ainda mais a nossa vida, mais uma vez.
Um feliz e santo Natal,
da minha para a sua família.
Posted on Deixe um comentário

O primeiro encontro d’A casa de Penélope

Um grande evento nunca começa na data prevista, mas muito antes. Contássemos a partir do dia em que surge a idéia, às vezes muitos anos são passados até a sua realização. Este, contudo, não é exatamente o nosso caso. O primeiro encontro presencial d’A casa de Penélope foi preparado ao longo de um ano, o primeiro ano de existência do próprio clube. Mas não foi nada difícil. Pelo contrário: tudo pareceu fluir maravilhosamente bem, desde a escolha do local, o acerto dos detalhes, a realização do evento em si até a despedida. E é sobre tudo isso que eu desejo falar agora.
Primeiro, o local. Como não mencionar a querida Pousada Aldeia dos Sonhos, que faz jus ao nome que carrega? Ricardo e João, os proprietários, são a gentileza e o zelo em forma humana: não só ofereceram excelentes ambientes e acomodações como ainda contribuíram sugerindo boas idéias para facilitar a dinâmica e integração do grupo. Isso para não mencionar o famoso (e delicioso) café da manhã, que nos transporta de volta para a cozinha e o colo de nossas prendadas avós. Enfim, nem eu, nem as Penélopes tivemos o quê reclamar do lugar onde realizamos nosso primeiro encontro, e, ao que tudo indica, repetiremos a dose em outubro do ano que vem.
Depois, o sábado pela manhã, o primeiro encontro do encontro. Este foi o momento do primeiro contato pessoal com a maioria das Penélopes: que alegria poder encontrá-las assim, cara a cara, depois de tantos e-mails, chats e hangouts, e poder abraçá-las! Foram instantes de alegria e emoção. Interessante notar que apesar de todas as novidades, em nenhum momento percebi aquele desconforto habitual que ocorre nas reuniões de pessoas desconhecidas, mas, apesar da incipiente familiaridade, um clima acolhedor e fraterno parecia pairar sobre nós. Em seguida Gustavo tomou a palavra e nos ofereceu uma pequena palestra sobre alguns personagens masculinos das obras que lemos até o momento (Petruchio, Charles Bovary e Admeto), acrescentando ainda algumas considerações sobre Ulisses, o marido de Penélope, da Odisséia, personagem que inspirou o nome do clube. Foi ocasião para refrescar a memória, enfatizar questões importantes sobre os papéis dos cônjuges e também integrar um pouco mais os maridos presentes no grupo.
Ao meio-dia corremos para um restaurantezinho de comida boa, bonita e barata no centro de Canela e tivemos diversos momentos de bate-papo descontraído.
À tarde, depois de algumas horinhas livres, voltamos à aconchegante sala de reuniões e ouvimos, com muito prazer e durante mais de uma hora, o prof. Rafael Falcón falando sobre literatura para crianças, alfabetização e educação. Mesmo as Penélopes que ainda não são mães saíram extremamente enriquecidas, pois ouvir o prof. Rafael foi uma daquelas preciosas oportunidades para avaliar nossa própria educação e buscar corrigir os erros e falhas da formação, além, obviamente, das muitas indicações para a educação das crianças. Mas a conversa não parou na palestra: fomos ao (delicioso) coffee break e prosseguimos quase até ao anoitecer conversando e convivendo muito. Que momentos! Nada de conversas miúdas, pueris e “para socializar”: todos falando com o coração nas mãos, remindo o tempo, aproveitando a raridade que é o ter interlocutores sinceros e interessados naquilo que realmente importa e é digno de nota durante nossa curta vida.

Convém mencionar que algumas Penélopes vieram com maridos e filhos, de modo que as crianças brincaram tranquilas durante todo o tempo na casa que elas batizaram de “casinha da Laura” (em referência à Laura Ingalls Wilder, pois a casa era toda de madeira e repleta de objetos e utensílios antigos). Ou seja, toda a família pôde aproveitar sossegadamente.
No domingo pela manhã fomos à igreja e, depois, tomamos, todos juntos, o café da manhã na Pousada. Foi o momento da “DR” do clube, onde pedi às meninas que criticassem nosso trabalho e nos ajudassem a melhorar. Não minto ao dizer que elas nada tiveram a reclamar, mas, na verdade, revelaram que o clube superou todas as expectativas. Recebi minha medalha imaginária nessa hora! Hahahaha Levantamos da mesa (finalmente!) e fomos tirar fotos e continuar a conversa na recepção da Pousada. Parecia que ninguém queria ir embora, pois emendávamos um assunto no outro, orbitando sempre, porém, sobre as questões de família, fé e educação. Foi um tempo totalmente espontâneo de compartilhamento de vida, de experiências e de mútua edificação. Daí em diante algumas já retornaram às suas cidades. À tarde passeamos, com aquelas que ainda ficaram mais um pouco, no Castelinho Caracol e tivemos algumas boas horas juntos.

Por fim, voltamos para casa, eu e minha família, ao fim da tarde, completamente mortos de cansaço (eu e Gustavo, no caso), mas muito gratos a Deus por esse tempo de crescimento compartilhado, comovidos com as tantas demonstrações de carinho que recebemos (quantos presentes lindos!) e felizes pelos vínculos criados e estreitados neste final de semana que passou voando.

Tenho plena ciência de que minhas palavras não fazem justiça ao primeiro encontro. Mais adequado seria se as próprias Penélopes dissessem o que acharam. De todo modo, porém, fica aqui o registro desse momento especial que encerra o primeiro ano de atividades d’A casa de Penélope, e fica também o convite para que você venha participar conosco, presencial ou virtualmente, no próximo.

As inscrições para participar das leituras de 2018 já estão abertas. Confira aqui. Não perca tempo (nem o prazo)!

Abaixo, algumas fotinhos.

Posted on Deixe um comentário

Filhos pequenos e vida espiritual

Mais uma vez aproveito posts do facebook para dar uma agitada por aqui.

Compartilho aqui algumas sugestões que fiz a uma mãe de dois bebês que me pediu ajuda, pois podem ser úteis a mais alguém. As crianças da mãe em questão têm pouca diferença de idade e o mais velho tem exigido muita atenção.
“1. Em primeiríssimo lugar, priorize as crianças: a casa não é o mais importante no momento, ela poderá ser limpa em outras ocasiões, já as crianças precisam que você agora, neste instante;
2. Quando o mais novo estiver dormindo, dê atenção ao mais velho: dê colo, beije-o, converse, brinque;
3. Quando for oportuno, talvez depois do almoço, durmam os três: você e os bebês. Sem descanso, seu leite pode diminuir e você pode acabar ficando debilitada física e emocionalmente, o que só pioraria tudo.
4. Não se importe com a opinião dos outros. Quem se preocupa de verdade tenta ajudar em lugar de ficar criticando.
5. Às vezes o mais velho precisará ficar chorando um pouquinho. Não se sinta mal. Você é uma única pessoa e simplesmente não tem como fazer tudo ao mesmo tempo com dois bebês no colo. Mas lembre-se de priorizar as crianças.
6. Tente deixar algumas refeições prontas no final de semana para não precisar cozinhar todos os dias. Você precisa se alimentar bem para ter leite e cuidar dos dois.
7. Lembre-se: por mais difícil que seja, esse tempo passa depressa e é muito importante para a sua santificação, por isso tente não se desesperar, não murmurar, nem sentir pena de si mesma. Deus sabe o que você é capaz de suportar e está no controle de tudo.”

Abordar a questão de levar as crianças à Igreja é sempre uma tarefa delicada. Há quem se ofenda porque crianças fazem barulho demais. Há quem se ofenda com quem se ofende por causa disso. Mas sobre todas as justificativas, melindres e não-me-toques, uma coisa é certa: Deus não nos dá filhos para que nos afastemos Dele, para acabar com nossa vida espiritual. Pelo contrário! Agora, ainda mais do que antes, somos chamadas a ser exemplo e a viver em atos aquilo que louvamos. Assim, filho pequeno não é nem pode ser um impedimento à comunhão. Filho barulhento e sem respeito também não. Ensine-o a se aquietar, a ser reverente, a observar em silêncio. “Ah, mas é tão fácil falar!” Se a questão é facilidade, a melhor saída para todos os problemas é morrer logo de uma vez, porque a vida é trabalho, é dificuldade, e o Paraíso só conquista quem persevera. Ou seja, a tarefa mais dificil é a que jamais é enfrentada, mas se você se esforçar pelo seu filho, com a graça de Deus, irá conseguir. No início, é normal que na criança faça birra, desobedeça, ou simplesmente não tenha noção de como se comportar, e é exatamente aí que entram os limites e a imitação. Aqui em casa, por exemplo, a coisa funcionou assim: Nathaniel, que é o mais agitado, passou boa parte de sua vidinha no colo do pai durante a Santa Missa; agora, que já é maiorzinho, sabe, por tantas vezes nos ter visto, como proceder, ao ponto de pedir para ir à Igreja. Repito: filhos não são nem podem ser um obstáculo à vivência da fé, nem na esfera pública, nem na esfera privada. Eles são os primeiros prejudicados quando a mãe enfraquece espiritualmente, assim como são os primeiros beneficiados quando ela se fortalece. Deus nos chama a si em todas as situações da nossa vida: na tranquila vida solteira, na insegura vida de recém-casada, na inexperiente vida de mãe de primeira viagem, na atribulada vida de mãe de muitos filhos. Ele nos chama porque nos ama e porque sabe que precisamos, mais do que todas as coisas, Dele mesmo.

Posted on Deixe um comentário

A casa de Penélope

É pessoal, sei que as coisas por aqui têm andando às moscas, mas isso é o contrário do que temos tido aqui em casa. As aulas continuam a todo vapor e muito provavelmente não tiraremos férias, pois ficamos muito tempo sem estudos em função do nascimento da Philomena e dos períodos de repouso e de recuperação.

No entanto, há uma razão bastante especial para as coisas estarem tão paradas: iniciamos um novo trabalho. Quem recebe nossa newsletter já está por dentro, mas como muita gente acessa o blog e não recebe a news, resolvi explicar melhor aqui também.

Nossa nova empreitada chama-se A casa de Penélope, nome escolhido com a ajuda da Chloe (que lembrou-se da exemplar Penélope da Odisséia) e da minha prima Antônia (que sugeriu que instalássemos Penélope e todas as futuras participantes em uma “casa”). A casa de Penélope é um clube de literatura temático, por assinatura, para mulheres.



A ideia surgiu tempos atrás, ao término da segunda turma do curso De volta ao lar. Percebi que, mais do que compreender a importância de nossos papéis como esposas, mães e donas de casa, precisávamos também ampliar nosso repertório imaginativo com bons exemplos femininos, para que, por meio deles, nos nutríssemos dos elementos necessários para a superação das objeções, críticas e resistências que encontramos abundamente em nossa época, tanto ao nosso redor quanto dentro de nós mesmas. Não muito tempo depois, conheci um clube do livro de mães norte-americanas que nos serviu como inspiração em termos de funcionamento, para que conseguíssemos, de fato, aqui no Brasil, levar adiante o compromisso com a leitura a sério.

Em outras palavras, desde outubro estamos às voltas com esse novo projeto e por isso o ritmo por aqui diminuiu drasticamente. Criamos um site, página no facebook, no instagram, elaboramos pesquisas, lista de livros, newsletter, guia de leitura… enfim, tudo quase pronto para dia 01 de janeiro começarmos as leituras – mas as inscrições já estão abertas; já somos algumas dezenas!

Quem quiser conhecer melhor, por favor, sinta-se em casa, ou melhor, na casa, A casa de Penélope. 😉

Posted on Deixe um comentário

A família Radford e os nossos dias


Instantes atrás li sobre a maior família britânica: eles acabaram de receber o 19o. filho. Deixando de lado o realmente importante, que é o testemunho de vida desse casal, achei interessante as objeções de alguns nos comentários. Dentre as repetidas censuras pela pretensa irresponsabilidade do casal, uma crítica voltava-se para o fato de o bebê não poder receber toda a atenção devida do pai e da mãe por precisar dividi-los com os dezoito irmãos. Já ouvi essa objeção contra a 
família numerosa muitas vezes, e acho que está na hora de dizer algo a respeito.


Hoje em dia, quando uma família abre-se à vida e acolhe todos os filhos que Deus deseja enviar, ela o faz na plena consciência de que nem o pai, nem a mãe, nem criança alguma é o centro do universo, a pessoa mais importante do mundo. Na verdade, todo cristão deveria saber disso: que ele não é o personagem principal da história, mas apenas um coadjuvante a fazer uma pequena participação na grande peça da eternidade, na qual Jesus Cristo é o protagonista absoluto. Ou seja, numa família numerosa, ninguém é a estrela. Todos os que ali estão devem viver em espírito de amor e de serviço, ajudando uns aos outros em tudo quanto necessário.


Mas é claro que uma pequena comunidade de pessoas que vivam tal entrega e dedicação, lutando contra o egoísmo na prática do dia a dia, não pode ser compreendida em nossos dias. Na verdade, é precisamente o contrário: além de incompreendida, tais pessoas são motivo de chacota. O bacana, o legal, o “sensato” é mesmo ter um só filho e tratá-lo como um deus, entupindo a criança de todas as coisas que porventura a sua soberana vontade venha a desejar (mesmo que 5 minutos depois tudo seja abandonado por um novo objeto de desejo), nunca dizendo “não” a ela, e nem sequer sonhando com uma palmada simbólica quando cometer o maior desrespeito de que for possível. Isso sim é bom. É torná-lo senhor de tudo, mas, tão logo quanto possível, despachá-lo para a escolinha, depois para a natação, depois para o futebol, depois para os avós e, por fim, para os amigos, para que joguem videogame até que os olhos saltem da cabeça, afinal, ninguém aguenta um tirano desperto por mais de uma ou duas horas.

Não é por acaso que há gente com 20, 30, 40, 50, 60 anos completamente incapaz de olhar para o lado e se importar de verdade com alguém, pois aprenderam com os pais que eles próprios são os protagonistas do universo, que os seus sentimentos são os mais importantes, os mais intensos, os mais sofridos do mundo, que as suas vontades não merecem freio algum, ainda que esmaguem os demais. E, curioso, geralmente é o mesmo pessoal que usa a hashtag
 ‪#‎maisamorporfavor‬

PS: Já ouvi também a crítica de que antigamente os mais velhos é que acabam criando os mais novos. Ora, será que é também um mero acaso o fato de que as pessoas crescem, noivam, casam, os filhos chegam e não têm a menor idéia de o que fazer com um bebê recém nascido? Ou, se aprendem alguma coisa, é porque fizeram algum curso no hospital antes do nascimento do bebê? Gente, cuidar de criança era algo que se aprendia em casa, na família, com os irmãos mais novos sim! Por que raios isso precisa ser visto como um martírio, uma injustiça? Seria de fato uma injustiça nos casos de os pais lavarem as mãos e não fazerem nada, mas, até onde sei, quando os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos era porque os pais estavam trabalhando na lavoura, fazendo comida, lavando roupa com as próprias mãos, enfim, fazendo coisas muito mais pesadas do que trocar uma fralda ou embalar um bebê. E esse aprendizado não seria de imenso auxílio quando a pessoa, uma fez adulta, constituísse a própria família? Ah, pra quê família, né? Bom mesmo é criar gato.

Posted on Deixe um comentário

Educação sexual para crianças

Como não é a primeira e provavelmente não será a última vez que me perguntam sobre educação sexual para crianças via mensagem privada, resolvi escrever publicamente o que penso a respeito, na condição de simples mãe que sou.

Alguém aí acha adequado que se ensine sobre o mundo do trabalho ou sobre o mercado financeiro para crianças? Não, né. Pois é, se trabalho e dinheiro fazem parte do universo adulto e não devem fazer parte das preocupações infantis, quanto mais as questões referentes à sexualidade!

Não é por possuírem órgãos genitais que as crianças têm condições de tratar de sexo. Aliás, é notório em seus próprios corpos que elas não têm maturidade física — nem psíquica — para lidar com tais assuntos, de modo que expô-las a estes conteúdos é um ultraje, um desrespeito e uma violência. Ao obrigá-las a tratar deste universo, força-se um amadurecimento fora de tempo com consequências terríveis à sua personalidade, pois as obriga a tratar de um assunto extremamente complexo e que envolve a totalidade da pessoa com as precárias ferramentas que possuem, isto é, com o mero instinto, assim como os animais.

Por outro lado, há quem afirme que o interesse parte das crianças, e a estes eu respondo: não há nada mais simples do que despertar o interesse em uma criança, seja lá sobre o que for. Quando se submete os pequenos a músicas, roupas, propagandas, programas de TV e comportamentos hipersexualizados não haverá surpresa em descobri-los interessados em tais assuntos, embora este seja um interesse maquiavelicamente forjado por adultos malignos. Em outras palavras, não acredito que as crianças tenham um interesse natural por sexo, mas elas podem, sim, ser conduzidas a isso.

Por último, a Igreja ensina que este é um assunto a respeito do qual o ensino compete exclusivamente aos pais. Vocês têm, portanto, não somente o direito, mas o dever de livrar as crianças de quaisquer intromissões neste sentido. Protejam-nas de influências dessa natureza e vocês verão o interesse pelo assunto surgir na época certa, quando se avizinha a maturidade física e psicológica, quando se aproxima a época da responsabilidade, do trabalho e da conquista do próprio sustento. Aí o assunto poderá ser tratado como convém, ou seja, com o respeito, a decência e a inserção no contexto necessário para o desenvolvimento não somente de uma vida sexual consciente, madura e responsável, mas da própria personalidade.

Posted on Deixe um comentário

Programação imperdível!

O mês de maio é um mês lotado de acontecimentos importantes: dia 01 de maio comemora-se o dia de São José Operário; dia 05, comemora-se o terceiro aniversário do Encontrando Alegria; dia 08, comemora-se o dia das mães; ao fim do mês, na provável data do dia 20, nascimento da Philomena, minha quarta filha; sem mencionar as seis ocasiões em que se celebram algumas das muitas aparições de Nossa Senhora (08, Estrela; 13, Fátima; 24, Auxiliadora; 26, Caravaggio; 31, Visitação; 31, Medianeira). Eu não poderia deixar passar em brancas nuvens um mês tão especial assim, não é mesmo? E, no entanto, três anos atrás, eu jamais imaginaria que tantas coisas teriam mudado e que haveria tanto para celebrar.

Assim sendo, planejei a seguinte programação (ou “currículo”) para os próximos dias, pensando especialmente em vocês, pais e mães que nos seguem e apoiam o nosso trabalho:

Dicas:

  • Dia 01 de maio, dia de São José Operário, publicarei um texto no qual apresentarei a vocês um livro sensacional sobre coordenação motora para crianças de zero a cinco anos, em português. O livro não somente oferece sugestões de atividades adequadas a cada faixa etária como também explica as razões de cada uma delas, nos oferecendo, portanto, uma maior compreensão do funcionamento e desenvolvimento físico adequados aos nossos filhos nesta que é uma idade essencial para a sua formação;
  • Dia 05 de maio, dia do Encontrando Alegria, publicarei um texto sobre um outro livro excelente, um verdadeiro manual de pré-alfabetização e alfabetização segundo o método fônico, inclusive com cronograma de atividades correspondentes à pré-escola e à primeira série, além ampla bibliografia e lista de materiais de apoio para cada atividade recomendada;
  • Dia 10 de maio, publicarei mais uma dica de livro, só que dessa vez voltado aos pequenos, como sugestão de livro para leitura em voz alta. Trata-se de um clássico da literatura infanto-juvenil mundial para ser desfrutado por toda a família e pode, ainda, servir como uma espécie de introdução aos exercícios de formação literária, tamanha é a sua riqueza;
Sorteios:
  • Dia 08 de maio, em homenagem ao Dia das Mães, sortearei três exemplares do livro Homeschooling Católico – Um guia para pais, em formato e-book. Embora seja um livro voltado ao público católico, pode ser de grande proveito a todas as famílias cristãs.
Promoções imperdíveis:
  • Do dia 25 de abril (amanhã, segunda-feira) ao dia 10 de maio, todos os nossos cursos (com exceção do “Seja Homem”) estarão com 50% de desconto! São eles:
  1. Homeschooling 1.0 (9 aulas): As bases históricas, metodológicas, pedagógicas, jurídicas, além de sugestões bibliográficas e de materiais, para quem quer praticar o homeschooling e não sabe por onde começar. De R$ 250 por R$ 125. Poderá ser adquirido no site do Instituto Isidoro de Sevilha;
  2. De volta ao lar (6 aulas): Como melhor compreender-se, agir, gerir a vida doméstica e resistir às pressões em uma época de tanta resistência e desprezo à vida no lar De R$ 300 por R$ 150. Poderá ser adquirido no site do Instituto Isidoro de Sevilha;
  3. Ensine seus filhos a gostar de ler (4 aulas): Como auxiliar as crianças no desenvolvimento e consolidação do gosto pela leitura com sugestões de atividades práticas, correção de possíveis erros da rotina, critérios para seleção de bons conteúdos e ainda uma lista com mais de 100 títulos seguros para diferentes faixas etárias. De R$ 240 por R$ 120. Poderá ser adquirido no fim deste post a partir de amanhã;
  4. Oficina de casamento (8 aulas): Porque pouca serventia tem uma dedicação extrema à educação das crianças quando o ambiente doméstico e a relação entre os pais encontra-se comprometida. Assuntos como as diferentes estações ao longo do casamento, o relacionamento com as famílias de origem, a resolução de conflitos, o perdão, sexualidade sadia além de outros fazem parte dos conteúdos. De R$ 240 por R$ 120. Poderá ser adquirido no fim deste post a partir de amanhã.
  5. Por último, se você quiser adquirir um pacote com todos os cursos, em lugar de pagar R$ 515, pagará R$ 470. O pacote poderá ser adquirido no fim deste post a partir de manhã.
E então, gostaram da nossa programação? Se sim, ajudem-nos a espalhá-la por aí, para que alcance e beneficie o máximo de famílias possível!

Posted on Deixe um comentário

Como o cristão deve decidir sobre a educação dos seus filhos

Uma miríade de perguntas povoa a mente dos pais que cogitam praticar o homeschooling, muitas das quais, às vezes, alimentadas mais pela imaginação do que pela carência de conhecimento a respeito de determinados aspectos da questão, isto é, mesmo sabendo como as coisas usualmente transcorrem, o fato de não “dar o passo” sempre de novo renova os mesmos medos.

Porém, independentemente da dúvida, do medo, da insegurança, do quanto se sabe e do quanto se ignora, acredito que toda a questão educacional, para além do próprio homeschool, deva ser inserida em um quadro maior, e este quadro é o da fé. Na verdade, para o cristão, toda a sua vida deve ser inserida, compreendida, decidida e explicada a partir disso, mas vou restringir meu post ao âmbito educacional.

Quando recebemos nossos filhos, pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus, recebemos um dos maiores, senão o maior, desafio de nossas vidas. Não se trata simplesmente de estudar e trabalhar para manter são o corpo de nossas crianças, mas sobretudo de fazer o mesmo com respeito às suas almas, afinal, nossa responsabilidade, embora restrita a um determinado tempo na vida de nossos filhos, repercutirá sobre a eternidade, marcará nossas crianças para sempre, muito provavelmente influenciando sobre o seu destino eterno. Assim, zelar por sua educação, em seu sentido mais amplo possível, é nosso dever, um dever instituído pela natureza e pelo próprio Deus.

Todas as dúvidas e certezas, todas as indecisões e decisões, devem, portanto, ser consideradas desde tal balança, não somente desde o prato da natureza, do corpo, da necessidade física, mas também a partir do prato divino, da alma, da necessidade espiritual. Logo, na prática, a questão do homeschool não pode ser pensada pelo cristão simplesmente em termos de “terei condições intelectuais de ensinar?”, “terei problemas com meus familiares ou com a justiça?”, “meu filho será capaz de conviver com os demais de maneira adequada ou se tornará alguém retraído?”, mas, principalmente nos seguintes termos: “a que tipo de coisa estarei permitindo que meu filho seja submetido se ele for (ou permanecer) para a escola?”, “quais serão os frutos disso em seu coração?”, “como responderei diante de Deus sobre isso, considerando que sei da possibilidade de escolher algo diferente?”. Eis a perspectiva correta, o ângulo essencial que iluminará com a luz adequada e suficiente tudo o mais, embora nem sempre com a velocidade que desejamos.

É claro que o fato de ponderarmos levando tudo isso em conta não é garantia de que todas as dúvidas sumirão da nossa mente instantaneamente ou que jamais cometeremos erro algum (somos humanos, não?), mas é garantia de que estaremos desempenhando, dentro das nossas limitações, da melhor maneira possível, o nosso dever, um dever antes de tudo para com Deus, mas também um dever para com alguns dos nossos próximos mais próximos, os nossos filhos. Por causa disso poderemos ter a certeza de que não estaremos sozinhos, seja qual for a circunstância, mas contaremos, felizmente, com a ajuda do maior interessado em todos nossas vidas: o próprio Deus.

O julgamento final, de Jean Cousin.