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A mulher artificial e a luta pela mulher verdadeira

Dias atrás, uma aluna marcou-me em um post de uma entrevista da feminista Elisabeth Batinder. Eu não a conhecia e, apesar dos visíveis problemas em sua argumentação, fiz o esforço de ouvi-la até o fim. Antecipo que a entrevista completa renderia páginas e páginas de refutação, pois está repleta de falácias, mas circunscrevo aqui minhas objeções à tese, apresentada logo ao início e que me parece fundamental, de que não existe instinto materno.

Batinder começa afirmando seu prazer em observar os pais e mães às voltas com os seus filhos nos parquinhos europeus, e que por conta desse hábito, acabou percebendo nos rostos das mães o quanto elas parecem entediadas e alienadas naquele mundo materno. Até aí, nada de errado, afinal, quantos de nós já não vimos algo assim ou não nos sentimos assim? No entanto, após um salto argumentativo olímpico, ela conclui, com base em tal observação, que, obviamente, a maternidade não é uma coisa natural para a mulher como o é para as macacas, de modo que, realmente, algo como “instinto materno” é uma mentira da cultura patriarcal que sempre lucrou com a opressão da mulher. Para embasar sua teoria, Batinder resolve reinterpretar a história desde o século XVII até os nossos dias, excluindo, obviamente, por um lado, Deus (e a religião), e, por outro, a natureza (uma existencialista heideggeriana?).

O livro que apresenta a teoria de Batinder não é recente. “O mito do amor materno” teve sua primeira edição em 1981. Não é difícil concluir, portanto, que as observações nas quais a autora se baseou remontam majoritariamente ao período das décadas de 60 e, principalmente, 70, isto é, imediatamente posterior às revoluções sexual e estudantil que convulsionaram a cultura ocidental no século XX. Salientar este aspecto não é sem importância, pois foi a partir deste recorte espaço-temporal que Batinder viu-se em condições de criar uma regra geral pretensamente válida universalmente. Mas será que as coisas são mesmo assim? Quem é a mulher ocidental e, mais especificamente, a européia, pós-revoluções da década de 60?

A mulher ocidental pós-revoluções de 60 é a mulher que testemunhou a banalização do divórcio e a ruína de sua família, que experimentou maconha, cocaína e LSD, que ingressou nas seitas new age, que reivindicou igualdade entre os sexos, que lutou por espaço no mundo do trabalho e que praticou o chamado sexo livre, isto é, o sexo sem compromisso, meramente recreativo, com quantos quisesse e quando quisesse. Ou seja, esta não é uma mulher normal, historicamente falando, mas uma mulher que sofreu, em um curtíssimo espaço de tempo, o impacto intenso de um grande número de mudanças dramáticas em seu modo de ser. E, de lá para cá, tais tendências e práticas tornaram-se mais e mais comuns, de maneira que o que inicialmente parecia exceção acabou por tornar-se regra.

Como, portanto, essa mesma mulher, ao descobrir-se mãe e ser de todo absorvida pela maternidade não pareceria entediada e alienada ao cuidar de suas crianças em um parquinho, já que seus filhos são o resultado indesejado de “uma transa” qualquer? Como não encarar a vida dura e rotineira do dia a dia familiar com uma disposição semelhante àquela do beberrão que sofre com a enxaqueca no dia seguinte ao porre? Como harmonizar as promessas mentirosas dos revolucionários com as verdades simples do cotidiano sem grande dose de frustração e ressentimento? E como hoje, passado meio século, não ouvir as afirmações de Batinder sem que elas soem repletas de verdade e respaldadas pela realidade que nos circunda? Repito, no entanto, a pergunta que fiz acima: será que as coisas são mesmo assim? E acrescento: teria Batinder desmascarado a mentira ancestral que nos aprisionou durante tanto tempo?

A resposta é simples: não. A mulher “sem instinto materno”, a mulher “vítima do patriarcado”, a mulher “entediada e alienada na vida doméstica” é a mulher estrategicamente planejada pelos revolucionários em sua luta pela destruição da “família burguesa”. De modo algum essa mulher, que infelizmente corresponde a quem muitas de nós nos tornamos nos dias atuais, é fruto espontâneo da história, resultado do natural desenrolar dos eventos, nascida de suas escolhas e decisões. Não. Ela é uma mulher artificial, postiça, fabricada, desenhada para a sua própria destruição e daqueles que estiverem sob o seu controle. (Para conseguir compreender de fato o que estou dizendo seria necessário um parênteses enorme para explicitar muito da história da origem do movimento feminista — não como as feministas o contam, adulterando o passado, mas como ele foi de fato –, entretanto, este não é o assunto do post e não há espaço suficiente aqui para tanto).

Agora, todavia, surge o dilema: uma vez que essa mulher artificial tenha se tornado a regra em nossos dias, onipresente ao nosso redor e também entronizada em nosso interior, como conseguir discernir a mulher verdadeira, aquela que se manteve basicamente a mesma ao longo dos séculos, dos milênios, que era feliz por ser quem era e sustinha a própria sociedade ao assumir seu papel no coração da família? Expandindo nosso horizonte histórico, olhando para além do que a viseira revolucionária nos permite ver, reunindo uma amostra variada de mulheres exemplares que, na peculiaridade de suas vidas individuais, dão testemunho de realizar à perfeição, apesar de seus limites, aquilo para que foram criadas por Deus. Sim, Deus e a natureza precisam voltar a participar de nossa vida e de nossa cosmovisão. Não há outro modo para retomar o fio da meada da história; não há outro modo de livrar-se do feminismo; não há outro modo de restaurar a feminilidade como ela de fato é e de encontrar alegria nisso.

O trabalho é árduo. Exige esforço, pesquisa, e principalmente o afastamento de uma série de hábitos e — muito provavelmente — de companhias que nos puxam em direção ao automatismo e à artificialidade do discurso feminista contemporâneo. Mas vale a pena. Reencontrar-se, redescobrir-se e poder desfrutar com maturidade das dificuldades e alegrias reservadas ao sexo feminino é um presente especial destinado àquelas que não querem mais a farsa, que não querem reinventar a roda, que não querem negar a história, que não querem negar a natureza, que não querem negar o instinto, que não querem negar a Deus. Assim, Elisabeth Batinder que me desculpe, mas mesmo debaixo de tantas camadas acumuladas em meio século de farsa e de loucura, a mulher verdadeira nunca deixou de existir em cada mulher individual: é preciso decidir-se por ela e, mais do que nunca, em nossos dias, por ela lutar.

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Homeschooling e adolescência: será que dá certo?

A maioria das famílias que inicia a caminhada homeschooler e têm filhos adolescentes obviamente não os educou em casa desde sempre. Assim sendo, para além das dificuldades comuns a todas às demais famílias (materiais, organização da rotina doméstica, etc), há ainda o hábito da vida escolar adquirido e reforçado ao longo de anos e, consequentemente, os vínculos com os colegas.

Diferentemente das crianças menores, o adolescente, pelo próprio período em que vive, descobre-se em um momento no qual os pares passam a ter uma importância maior do que até então possuíam. Deste modo, uma das principais razões para resistência ao homeschooling por parte dos filhos nessa faixa etária pode ser justamente a falta do convívio social, a saudade do tempo com os colegas.

No entanto, isso não precisa ser o fim de tudo, especialmente quando sabemos que a qualidade das amizades em nossas escolas não raras vezes é mais maléfica do que benéfica, mais prejudicando a formação do caráter dos nossos filhos do que os aprimorando de algum modo. Pensando nisso, deixo aqui alguns modos de contornar essa dificuldade, suprindo a necessidade de convívio social sem abrir mão do homeschooling:

  1. Convide algum(ns) bom(ns) amigo(s) (mas bom(ns) mesmo, decente(s), confiável(is)) para fazer alguma das aulas junto com os seus filhos, de preferência sobre alguma disciplina que os interesse realmente (artes, química, física, etc);
  2. Promova sessões de cinema na sua casa de tempos em tempos;
  3. Leve os seus filhos para fazer alguma atividade que envolva outras pessoas (aulas de música, alguma atividade física, oficina de origami, etc);
  4. Mas, sobretudo: procure outras famílias homeschoolers, se possível com crianças em uma faixa etária próxima das suas, com quem possam estreitar o convívio. Este é um vínculo fundamental, pois todos vocês, e não apenas as crianças, poderão se enriquecer por meio dele. Com o tempo os pais poderão organizar acampamentos com os meninos, enquanto as mães poderão organizar grupos de artesanato ou o que tiverem vontade de compartilhar e ensinar às crianças;
  5. Se ainda não houver nenhuma família homeschooler por perto, na sua cidade ou região, busque por elas pela internet, troquem correspondências (cartas mesmo!), lembrancinhas da sua região e combinem um encontro presencial em algum período do ano. Eis aí uma boa ocasião para praticar caligrafia e cultivar uma amizade à moda antiga. 😉
  6. Convide-os para algum trabalho voluntário, engaje-os nas tarefas da casa, no negócio da família, recompense-os pelos seus desempenhos e responsabilidades. Assim consegue-se tirar um pouco o foco do costumeiro “nada fazer” com os amigos e introduz-se algo de útil e relevante para a vida; 
  7. Finalmente, tenha paciência, persevere, converse. Não bata de frente o tempo todo. Negocie, concilie e, tanto quanto possível, ofereça aos seus filhos os desafios que eles precisam para seguir adiante rumo à vida adulta, pois nem a infância nem a adolescência são fins em si mesmos, mas etapas provisórias em direção à maturidade e à autonomia da adultez.
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A educação perfeita

Um dos sentimentos mais comuns entre pais e mães homeschoolers é a insegurança: “será que este é o melhor caminho/método/momento/professor/material didático?”. Sem dúvida trata-se de um sentimento perfeitamente normal, dadas as circunstâncias em que nos encontramos, seja enquanto indivíduos ou enquanto povo. No entanto, há um engano que pode ser suscitado pela própria insegurança e pelo respectivo desejo de livrar-se dela: a fantasia de que é possível alcançar um nível em que ela suma por completo da nossa vida e, no caso, da nossa prática enquanto homeschoolers.

Listo abaixo algumas considerações que acredito que sejam importantes a todos os que querem praticar uma boa educação domiciliar sem cair na tentadora fantasia da ausência total de insegurança:

  • A primeira delas é o fato de que todos nós recebemos uma formação deficiente, mesmo aqueles que se especializaram na área educacional. E isso não é uma crítica aleatória contra o sistema. Não. Basta que sejamos sinceros e assumamos nossas próprias limitações e carências. Porém, se ainda assim isso não for o suficiente, basta que consideremos as posições que alcançamos nos rankings internacionais de educação. Assim, precisamos abandonar a idéia de que nossos títulos garantem alguma coisa de significativa quando decidimos assumir a responsabilidade pela educação dos nossos filhos.
  • A segunda é o fato de que não há nenhum material brasileiro (ao menos não que eu conheça) que seja excelente, realmente muito, muito bom. Todos ficam entre razoáveis e péssimos. Portanto, também precisamos abandonar a idéia de que encontraremos algo, ao menos até o tempo presente, que nos satisfaça completamente e sobre o qual podemos ficar inteiramente descansados, pois o material dará conta de tudo.
  • A terceira coisa, e mais importante na minha opinião, é o fato de que não existe algo como “a educação perfeita”. Toda educação é uma escolha, uma decisão por um determinado viés, por uma determinada perspectiva. Assim, algumas coisas sempre serão mais enfatizadas em detrimento de outras. Além disso, há um elemento complicador inabarcável: a criança. Simplesmente não temos como prever todas as repercussões que as nossas escolhas educacionais terão na formação de nossos filhos. Em outras palavras, precisamos abandonar a idéia de que, com o tempo, chega-se a um ponto de segurança total, de previsibilidade total, de nenhuma chance de erro. As crianças, como pessoas que são, também fazem suas escolhas e têm as suas características únicas, coisas que muitas vezes nos escapam. E não poderia ser de outro modo, pois tanto elas quanto nós, precisamos chegar a um ponto em que os nossos limites sejam expostos e, por consequência, a nossa profunda necessidade de Deus. Em resumo, precisamos mesmo buscar fazer o melhor, sempre pesquisando, sempre nos aprimorando e atualizando, todavia, quanto ao mais, convém nos entregarmos à providência divina, pois só ela tem todas as variáveis em suas mãos.
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Dicas (muito) práticas para quem iniciará o HS


Fevereiro chegou, bateu e entrou, e com ele o retorno às aulas. Além disso, como diariamente aumenta a número de famílias que desejam ou começam a praticar o homeschooling, sempre é útil compartilhar algumas dicas relevantes para quem está recém ingressando neste caminho. Assim, deixo uma pequena lista de dicas totalmente práticas, voltadas para a administração da rotina familiar, para quem enfrentará seus primeiros dias de educação domiciliar.

  1. As refeições são momentos centrais na rotina da família, por isso planeje o almoço no dia (ou noite) anterior. Saber o que cozinhar e ter todos os ingredientes já disponíveis resulta numa grande economia de tempo e em refeições mais saudáveis;
  2. Outra opção é cozinhar a medida dobrada na janta para que sobre o suficiente para o almoço do dia seguinte, assim você não corre o risco de se atrasar e ainda cozinha uma única vez no dia;
  3. Melhor que isso só se você criar um menu semanal (ou quinzenal, ou mensal) e deixar todas as porções semipreparadas, bastando poucos minutos diários para que as refeições estejam prontas;
  4. Deixe o local de estudos pronto no dia anterior: mesas limpas, cadeiras no lugar, livros separados, canetas, lápis, borracha, apontador, etc.;
  5. Dependendo da idade das crianças, deixe suas roupas prontas e separadas na noite anterior, pois assim só precisarão vestir-se e não a solicitarão para saber o que usar;
  6. Foque em uma coisa de cada vez, especialmente se estes forem os seus primeiros dias como mãe homeschooler. Em outras palavras, não fique pensando em tudo o que precisa fazer enquanto auxilia as crianças nos estudos, pois, neste caso, é bastante provável que coisa alguma fique bem feita;
  7. Planeje o seu dia para que cada atividade tenha o seu momento: as refeições, os estudos, a limpeza, os banhos, o tempo livre, etc.;
  8. Não desanime nem se frustre se, no início, pela falta de prática e ansiedade, você acabar embolando o meio de campo e terminar não conseguindo fazer tudo o que havia planejado. É essencial que você mantenha a calma e não desista, lembrando sempre daquele ditado: “ninguém nasce sabendo”;
  9. Por fim, lembre-se que, sendo este um período inicial, requererá de todos os membros da família um tempo de adaptação, portanto, não tenha medo de rever, substituir, inverter, trocar tudo o que achar necessário, afinal, homeschooling é também liberdade!
Se você quiser saber mais dicas sobre organização da rotina familiar, conheça o meu curso De volta ao lar. Se você precisa de subsídios históricos, jurídicos, metodológicos entre outros para uma melhor prática do homeschooling, conheça o meu curso Homeschooling 1.0.
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Vivências e memórias

A virada e o início do ano são as épocas mais festejadas por aqui: depois do Natal e do Ano Novo, logo chegam os aniversários do Gustavo, do Benjamin e da Chloe. Há quem não goste de aniversários próximos por perder o holofote da festa e a exclusividade da comemoração, mas para quem tem família grande e saldo finito, eles são uma bela oportunidade para economizar. Este ano, porém, não foi um ano de festa no sentido convencional do termo, com bolo e balões, mas um ano de passeio especial.

Nossa decisão de não fazermos festas anuais tem a ver com o fato de que, embora elas seja ocasiões especiais, são vivências em grande parte semelhantes entre si, assim, a opção de festejarmos com um passeio é, por um lado, uma alternativa à repetição e, por outro (e principalmente), a chance de oferecer às crianças uma experiência nova, dando a elas a oportunidade de vivenciar algo que desejavam e que ficará em suas memórias para sempre.

Esta é uma prática que já adotamos em aniversários anteriores com bastante sucesso: já fomos a parques de diversões, lanchonetes e sorveterias favoritas. Mas é importante ressaltar que só faz sentido e só dará certo substituir a festinha pelo passeio no caso de a criança topar a proposta, sem obrigatoriedade alguma, afinal, aquele é o dia dela.

Neste ano fomos ao zoológico mais bonito que já visitei, o zoológico da cidade de Gramado.


Embora não seja tão grande nem conte com tantas espécies (a proposta é exibir apenas animais brasileiros, sem elefantes, leões e girafas, portanto), é, sem dúvida, o mais organizado, limpo e bem cuidado que já vi. Infelizmente, como estava bastante calor, como tínhamos várias crianças para cuidar e como o cansaço não demorou a bater, em pouco tempo desisti de fotografar os animais. Desculpa aí, pessoal.


Logo na entrada, adentra-se no viveiro das aves. Sim, elas não estão em gaiolas, mas em um enorme viveiro dentro do qual passeamos e podemos vê-las a centímetros de distância. Araras, papagaios e outras aves das quais nem lembro o nome estão por todos os lados exibindo sua beleza e emitindo seus cantos.

Em seguida, depois de cruzarmos por nuvens de borboletas, chegamos, se bem me lembro, aos macacos: bugios, macacos-prego, micos e muitos outros. Além deles, alguns felinos, como o puma, a jaguatirica e a majestosa onça também estavam no percurso (novamente, não em jaulas, mas em espaços com uma grossa vitrine, o que protege e permite proximidade). Obviamente, mamíferos como o lobo guará, a Dilma, digo, a anta, a capivara, entre outros estavam presentes. Patos, jacarés, cobras, cágados, lagartos…

Mas o mais belo animal, na minha opinião, é o cervo do Pantanal. Que animal adorável! Belo, tranquilo e de aspecto tão doce (imagem do google :p)!


Não é preciso dizer o quanto as crianças gostaram. Benjamin, inclusive, já queria que começássemos a planejar uma nova visita para a semana que vem, só que desta vez para o passeio noturno (há uma programação específica para a noite no zoológico!). Claro que não iremos, não semana que vem, mas certamente é uma possibilidade para algum passeio futuro.
De todo modo, mais uma vez a opção passeio especial se mostrou uma decisão que renderá ainda muitas conversas e lembranças.

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Deus, maternidade e os lobos em notas soltas

Mais alguns posts de facebook que valem o compartilhamento por aqui. 😉

I.
Quando compreendemos com todo o nosso coração que cada filho que nos chega não é o mero resultado da cópula, um produto biológico da mistura de pai e mãe, mas uma criatura trazida à vida exclusivamente por vontade divina, e da qual o aspecto físico é apenas a pequena parcela visível a que temos acesso, paramos de nos preocupar com dinheiro, com parto, com casa, com enxoval, com roupas, com o que quer que seja e abraçamos a vontade de Deus cheios de amor, gratidão e confiança. Sim, não basta que haja material genético, biológico, humano para que a vida se faça: o essencial, isto é, a vida propriamente dita, não vem de nós, mas de Deus. Quando compreendemos isso, percebemos que Ele, e não nós, é o maior interessado e o maior responsável pelo surgimento da nova pessoa que se anuncia, de modo que, se Ele a quer, se Ele a deseja, se Ele a ama com um amor imensurável e enviou o Seu Filho para salvá-la, quem somos nós para nos inquietarmos e nos amedrontarmos diante do que quer que seja? Deus cria, Deus governa, Deus ama. Nós apenas cooperamos, ou não, com o processo.II.
E quando compreendemos isso (que cada filho é fruto da vontade criadora e amorosa do próprio Deus), é inevitável chegarmos à conclusão de que todos, TODOS eles, cada um ao seu modo, são bênçãos com propósitos únicos na história humana, por pequenos ou grandes que sejam. Como não se sentir honrada por poder participar, ainda que de modo pequeno e imperfeito, de tão incomparável empreendimento divino?! Como não se sentir, ao mesmo tempo, pequena, pela quantidade de coisas que independem de nós na criação de um filho, e grande, por participar de algo desejado pelo Rei do universo?! O que são as dificuldades dessa vida diante disso?! O que é o sono, a fome, o cansaço, a dor temporários diante da chance de tornar-se a matriz terrestre de almas eternas, ajudando-as a crescer e sendo por elas ajudado a vencer-se?! Nada. Nada. Nada. E mais(!): como cogitar restringir o número daqueles com que Deus sonha desde sempre?! Esta, penso eu, é a última fronteira para a fé da mulher contemporânea, a verdadeira entrega irrestrita nos braços de Deus.III.
Não nos admiremos nem nos amedrontemos quando nos encontrarmos diante de um padre, monge, bispo, frei ou pastor que nos censurar por cuidarmos de nossa família e por sermos mães de muitos filhos em lugar de “construirmos uma carreira promissora”, sobretudo se contarmos com a total anuência de nosso marido. Judas Iscariotes não estava, afinal, entre os doze discípulos de Jesus? Em outras palavras, não devemos nos surpreender ao encontrar homens ímpios entre os líderes da Igreja. Rezemos por eles, para que se convertam enquanto ainda têm tempo, pois eles realmente precisam, e prossigamos em paz, certas de que antes de agradar ao mundo e as suas modas, é preferível agradar a Deus.

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Feminismo? Não, obrigada.

Ontem à noite, eu, Aline Brodbeck e Carol Balan participamos do programa ELAS, o espaço feminino do Terça Livre, falando sobre “carreira profissional vs. casamento e filhos”, o assunto do encontro. Contamos para Cínthia Tonani e Laíza Helena um pouco das nossas experiências, tanto no mundo do trabalho como na família, compartilhamos algo das nossas compreensões acerca do atual estado de coisas no universo feminino e também um pouco do nosso trabalho. Quem quiser conferir, aqui está o vídeo do hangout. 😉

Links mencionados no programa:

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Muito prazer, meu nome é Megera

Seremos injustos se apontarmos o feminismo como a origem do problema da confusão hierárquica nas famílias (e, consequentemente, na sociedade): esta é, possivelmente, uma das mais antigas estratégias postas em execução contra a humanidade. Se não acredita, confira lá no Livro do Gênesis. O diferencial em nossos dias é que agora o que era exceção tornou-se regra, de modo que a maioria de nós já não sabe o que convém ao seu papel, o que compete à sua alçada (para não mencionar os casos em que já nem se acredita em papéis e alçadas distintas, mas esse é um outro assunto), exercendo de maneira angustiada, confusa, aleatória ou inconsciente os seus deveres.

Hoje mesmo recebi (mais) um e-mail de uma mãe que não sabe o que fazer para controlar o desejo que os filhos têm de assistir televisão. Dias atrás uma outra mãe procurou-me sem saber o que fazer para conseguir com que os filhos escovassem os dentes. Houve ainda o caso de alguns que relutavam em estudar. Em outra ocasião… Bom, melhor parar por aqui porque a lista é longa e vocês já captaram o que quero dizer, isto é, tornaram-se preocupantemente mais frequentes os casos de mães que não sabem o que fazer para conduzir os filhos e, mais grave ainda, que não têm certeza de que o modo como tentam fazê-lo é o correto.

As justificativas para o desnorteamento das mães são muitas: segundo elas, se as crianças não obtém o que desejam, choram, fogem, brigam, fazem escândalo, o clima na casa torna-se péssimo, dizem que as odeiam e por aí vai. Em outras palavras, apesar das muitas pretensas causas, tais mães caíram na boa e velha chantagem emocional (o que é suficiente para que de algumas de nós mergulhem numa espiral de dúvidas e incertezas cada vez mais profunda e devastadora emocionalmente). Mas, caso queiramos entender mais do que o modo como fomos cair nesse truque pra lá de conhecido, aprendendo principalmente como evitá-lo, comecemos pelo começo:
  1. Crianças não são anjos. Crianças são… humanos.
    É essencial que as mães saibam que nós, seres humanos, somos criaturas decaídas, ou seja, a imperfeição, depois da imagem e semelhança de Deus, é o nosso sinal mais característico. Aí você me responde: ah, mas isso eu sei, né Camila! E eu respondo: sabe mesmo? Então por que você se surpreende quando seu filho não se comporta como um anjo? E mais: por que você perde o controle? É comum, ao pensarmos em queda, em pecado, que voltemos nossa atenção para o universo adulto, afinal, é a ele que pertencemos e é isso o que somos. Porém, é simplesmente fundamental termos bem claro diante de nós que esse traço constitutivo da humanidade inclui as crianças. É óbvio que os pecados da infância são bem menos graves que os da adultez (e devem ser, pelo amor de Deus!), mas ainda assim estão lá, a tendência desde sempre está lá, a inclinação ao que é ruim, à rebeldia, à mentira, ao descontrole está todinha lá dentro, e cabe a nós, como responsáveis instituídos por Deus do seu cuidado, ajudá-las a evitar o que é mau e a procurar o que é bom. Tal tarefa inclui coisas bem concretas: não deixá-las assistir os desenhos que quiserem quando e o quanto quiserem; não deixá-las comer besteiras até que vomitem; não deixá-las sem banho até que criem feridas; não deixá-las sem estudo até que comecem a falar “pobrema” e tudo o que saibam sejam letras de funk. É, eu sei, não é fácil. Mas é seu dever e você prestará contas dele a Deus um dia. Assim, chegamos ao ponto seguinte:
  2. Não seja amiga. Seja mãe.
    Muitas de nós, confundidas pelos ventos da época em que vivemos, não raras vezes totalmente perdidas até mesmo a nosso próprio respeito, acabamos agindo como quem procura nas crianças a aceitação e a reciprocidade de amigos em lugar do respeito e do carinho de filhos, e precisamente por isso viramos reféns das chantagens emocionais que eles nos fazem. Mães, por favor, pelo amor de Deus, pelo seu bem e da sua família, coloquem as seguintes palavras no descanso de tela dos computadores, tablets e celulares de vocês, no maior tamanho de fonte possível e em vermelho: EU NÃO SOU AMIGA DOS MEUS FILHOS: SOU A MÃE DELES! Sim, muito prazer, meu nome é Megera, mas agora preste atenção: uma vez que você admite que o seu trabalho é cuidar dos seus filhos para que eles não virem pequenos demônios tirânicos (lembra da queda?), mas crianças felizes, alegres e obedientes, você precisa admitir também que não pode deixá-los entregues às suas próprias vontades, não é mesmo? E se você admitir ambas as coisas, então será obrigada a concluir que muito provavelmente será forçada a contrariá-las em diferentes situações. E, sim, isso é cansativo, repetitivo, desgastante, mas… é a vida e faz parte do seu dever. Com isso tudo eu não quero dizer, obviamente, que você deva ser inimiga dos seus filhos. É lógico que não. Mas amar um filho é um trabalho que envolve a imposição de limites, além de muito afeto, diversão e liberdade naquilo que é conveniente e seguro a ele. No futuro, quando ele souber cuidar de si graças ao cuidado que você devotou a ele, a amizade poderá florescer e o relacionamento entre vocês alcançará a maturidade. Agora, porém, procure a amizade do seu marido, da sua irmã, da sua mãe, da sua colega, enfim, de quem você quiser, mas, por favor, seja a mãe dos seus filhos, ok? E assim chegamos a mais um ponto:
  3. O trabalho deles é tentar. O nosso é resistir.
    Prepare-se: não é porque você tomou a resolução de não cair nas chantagens emocionais das crianças que elas irão colaborar com você. Pelo contrário. O mais provável é que elas esforçem-se ainda mais por tirá-la do sério e, assim, consigam o que desejam. Assim sendo, não se supreenda se nos primeiros tempos em que você tentar regular a tv, os doces, os banhos, os estudos elas apresentarem um comportamento ainda pior, chorando ainda mais, brigando ainda mais, fazendo ainda mais escândalo, dizendo ainda mais alto que odeiam você e assim por diante. Isso é absolutamente normal e previsível pois o trabalho deles é tentar, mas o seu, em contrapartida, é resistir. E é claro que há diferentes modos de percorrer esse caminho rumo à conformidade da vontade deles à sua, mas o mais importante é que você não perca o controle nem de si mesma nem da situação. Tente não gritar, não argumentar, não se desdizer. É o seu comando e ponto final. Se preciso for, desconecte a tv da tomada. Se não resolver, doe a tv. Se ainda assim não der certo, pois eles correm ao computador, troque a senha semanalmente. Fique firme. Não vacile. Ensine, com o seu exemplo em não retroceder, a perseverança e o domínio próprio. Estas são lições indispensáveis para a vida adulta.

  4. Substitua as coisas ruins por coisas boas.
    Por último, não esqueça que, se por um lado você precisa inibir os comportamentos nocivos, por outro você precisa incentivar os comportamentos benéficos. Ou seja, não basta apenas que a criança ouça o “não” e saiba da reprovação, mas é preciso que ela ouça muitas vezes o “sim” e sinta-se aprovada. Uma coisa não pode caminhar sem a outra, caso contrário, embora consigamos controlar nossos pequenos, faremos deles jovens criaturinhas miseráveis, visivelmente infelizes e com uma autoestima que alcança, no máximo, a sola do chinelo. Por isso é importante que ofereçamos alternativas, boas opções aos maus hábitos. Por exemplo: em lugar dos desenhos, ofereça tintas, massinhas, livros, quebra-cabeças, bicicleta, carrinhos, bonecas, corda, areia, potes…; em lugar do chocolate, ofereça frutas, doces integrais, comida de sal…; em lugar da sujeira da falta de banho, ofereça uma banheira (ou um balde) e brinquedos na hora do banho, depois elogie, cheire, beije, aperte; em lugar da vagabundagem infinita, ofereça o convívio com crianças estudiosas, exemplares, ajude-o com carinho e paciência nas dificuldades, elogie todo esforço e parabenize cada conquista. Enfim, utilize uma força ainda maior que aquela empreendida em afastá-los do que é ruim para aproximá-los do que é bom. O resultado, embora possa ser demorado, valerá muito, muito a pena.
Seguindo os passos listados acima, e regando tudo com muita oração, em pouco tempo, creio, seus filhos voltarão a ser seus filhos, você voltará a ser a mãe deles e, se Deus permitir, a família usufruirá da restauração da hierarquia na relação mãe e crianças. Repito: fique firme. O desnorteio existe, mas o norte ainda está no mesmo lugar.
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Feminismo, maternidade e fé em notas soltas

As notas abaixo foram escritas no facebook, mas penso que vale a pena compartilhá-las aqui com vocês:

I.
Hoje caminhei pela cidade, em meu passo de tartaruga manca, pagando contas e comprando algumas coisas para o Natal. Sem pressa, conversei com algumas pessoas desconhecidas. A maioria de vocês, mulheres, não faz idéia do quanto é bom encher a boca para dizer, em resposta às perguntas sobre o bebê e a gestação, que este é o meu quarto filho. Dá uma alegria poder ver nos olhos das mulheres os preconceitos se desmanchando e uma inesperada alegria nascendo. Quando elas vêem uma mulher jovem, tranquila, falando com amor de sua família, de seu marido e de seus filhos, inevitavelmente elas se vêem diante de um outro modo de ser mulher, diferente do que nos vendem e nos forçam a grande mídia e, lógico, as feministas. Não sei — e nem me interessa saber — que espécie de fruto — se é que dará algum fruto — nascerá desse tipo de informalidade, mas sei que me enche de alegria e gratidão a Deus poder mostrar o milagre que somos, eu e os meus, no meio dessa geração que abraça a esterilidade como se fosse a única alternativa existente e aceitável. Àquelas de vocês que podem fazer o mesmo que eu, e com ainda mais propriedade, o meu abraço sincero e a minha admiração!

II.Eu não nasci pró-vida nem pró-família. Aliás, venho de experiências que desencorajariam qualquer um. No entanto, dando continuidade a uma série de mudanças profundas em minha vida, comecei a conhecer famílias em que as pessoas se amavam, que queriam ficar juntas apesar das diferenças, que lutavam de verdade por isso; depois, comecei a conhecer famílias com muitos filhos (mais de 3, no mínimo) e fui aprendendo sobre o modo como elas compreendem seus papéis, como resistem às pressões e críticas, como são felizes e prevalecem quando todos esperam o contrário; por fim, fui percebendo como minha fé alicerça, incentiva e luta por tudo isso, pelas famílias e pelos filhos, por muitos filhos, por tantos quantos Deus quiser mandar. Enfim, não vim ao mundo com essa mentalidade e nem a assumi instantaneamente, de uma hora para outra, mas percorri um caminho no qual o exemplo de pessoas reais, de carne e osso, bem como minha própria busca por uma vida de verdade, escolhida por mim, não imposta desde fora e formatada pelas propagandas, revistas e panfletos, fizeram toda a diferença. Não foi fácil e não tem sido fácil, mas a convicção de que estou fazendo a coisa certa e o apoio irrestrito do meu marido são tudo o que preciso para seguir em frente e colher os frutos que tenho colhido: a fecundidade, a união e o amor no lar. Se é isso o que você busca, saiba que apesar de difícil é possível, sim. Comece pedindo a ajuda de Deus e confiando na Sua resposta. Não se apresse, não fique ansiosa, apenas peça e confie. Aos poucos as coisas começarão a acontecer.

III.

Mulheres queridas da minha timeline, se vocês querem entender por quais motivos ser uma mulher normal — daquele tipo que viu-se ao longo dos séculos e milênios, isto é, que deseja ter uma família com marido e filhos e dela cuidar — é uma coisa cada vez mais difícil e contracultural, leiam os seguintes livros, todos sugeridos em meu curso “De volta ao lar”:
1. De volta ao lar, de Mary Pride (não, o nome do meu curso não é para imitar o livro; foi o resultado de uma enquete feita com as leitoras do blog).
Trata-se do relato surpreendente de uma ex-feminista que se converteu, casou, teve filhos e os educou em casa. Para quem quiser conhecer as raízes religiosas e malignas do feminismo é um prato cheio. Ah, e está disponível na web, basta procurar.
2. O amor que dá vida, de Kimberly Hahn.
Obra de uma teóloga ex-protestante convertida ao catolicismo a respeito das diferentes políticas de planejamento familiar e a posição oficial da Igreja a respeito. O livro é repleto de testemunhos de outras mulheres que entraram em contato com Kimberly relatando suas histórias de abertura à vida.

3. O outro lado do feminismo, de Phyllis Schlafly.
Lançamento recente da editora Simonsen. Desfaz uma por uma das mentiras que o feminismo nos conta há mais de 5 décadas. É mais ou menos o equivalente ao “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” só que contra o feminismo.

IV.
Um alerta precisa ser dado: optar por constituir uma família numerosa não é o mesmo que optar por morar numa casa em lugar de morar num prédio, ou por decidir cursar história em lugar de filosofia na faculdade. E não o é pelo simples motivo de que a formação de uma família envolve o nascimento de pessoas que mudarão a sua vida de uma maneira irremediável e para sempre. Desejar ser a esposa de um só marido e a mãe de muitos filhos não é algo pelo qual se decide porque “é lindo“, “é de Deus”, “meu namorado sonha com isso”, etc. Estamos falando de algo definitivo, afinal! E mais: de algo que, além de contar com toda a oposição do mundo e de todo o mundo, ainda dá muito, muito trabalho. “Mas, Camila, filhos não são bênçãos de Deus e não devemos estar abertos a elas?” Sim, é claro. Mas você sabe por que Deus nos abençoa? Para nos atrair para mais perto Dele. E você sabe como é que chegamos mais perto de Deus? Pela cruz. E você sabe para que serve a cruz? Para matar. É, para matar. Matar em nós tudo aquilo que nos afasta de Dele: nosso egoísmo, nossa preguiça, nosso orgulho, nossa prepotência, nossa covardia, nossa indiferença, nossa autocomiseração… Filhos são bênçãos dadas por Deus para que nos tornemos mais semelhemantes a Ele. Em outras palavras: não entre nisso, não assuma o propósito de ter uma família numerosa por motivos secundários, por ter mudado de turma e ter se convertido, porque o pessoal da paróquia acha legal, por achar bonito — eu acho bonito o Rio de Janeiro, mas jamais moraria lá, por exemplo –. Não. Só entre nesse barco se estiver convicta de que é isso o que Deus quer para você, pois aí quaisquer oposições exteriores virarão piada, virarão nada. Enfim, avalie o quão disposta você está a morrer para si mesma para que o amor se multiplique, como o grão de trigo que cai na terra e morre para assim poder germiná-la. Se você não estiver disposta a morrer, não está disposta a amar. Não é bonito, não é fácil e não é agradável, não é o que os filmes mostram, não é o que as pessoas falam, mas é assim que as coisas de verdade, na realidade, são, basta olhar para a cruz. Mas já antecipo um outro alerta: só quem experimenta a cruz consegue experimentar a salvação; só quem perde encontra; só quem morre ressuscita.

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Os pais são um perigo para os seus filhos?!


Sei que o título sugere uma piada, mas, infelizmente, não é este o caso. Autoridades do estado do Rio Grande do Sul realmente pensam e afirmam publicamente e sem o menor constrangimento um tal absurdo. Mas antes do mais, convém esclarecermos o contexto completo da questão.

Meses atrás, mais precisamente no início deste ano, o casal Moisés e Neridiana Dias entrou com recurso junto ao Superior Tribunal Federal requerendo o reconhecimento do direito de educarem sua filha mais velha, Valentina, em casa. Valentina estudava em uma escola da zona rural de modalidade multiseriada, isto é, com crianças das mais diferentes idades abordando os assuntos nos mais diferentes níveis e tudo num mesmo ambiente. Os resultados da mistura vocês podem imaginar. Pois bem, depois de uma série de tentativas de autorização para a prática da educação domiciliar negadas, primeiro, junto à Secretaria de Educação, depois, junto ao Foro da Comarca de Canela/RS, a família Dias resolveu levar o caso às últimas consequências, isto é, ao STF.

Ao chegar às mãos do Ministro Roberto Barroso o caso tomou proporções nacionais. Abrindo a questão para enquete virtual no site do STF, ficou evidente o interesse nacional sobre o assunto. Assim, mais do que decidir sobre o direito da família Dias, a decisão do Ministro incidirá sobre a vida de todas as mais de 3.000 famílias homeschoolers do Brasil.

Todavia, no dia de ontem, segunda, 09 de novembro, o procurador Luís Carlos Kothe Hagemann pediu ingresso na qualidade de amicus curiae como representante do governo do estado do Rio Grande do Sul junto ao caso. Em seu pedido fica explícita a oposição ao direito das famílias. O problema, contudo, não é este, afinal nem todos precisam concordar com o direito à prática da educação domiciliar. O problema foram os termos utilizados pelo procurador para justificar sua posição. Para ele, os pais são um perigo, uma ameaça aos seus filhos, de modo que o Estado, por meio da escola, tem a função de proteger as crianças de seus genitores. Sim, por incrível que pareça não estou falando de um panfleto nazista ou soviético do século passado, mas de uma requisição redigida por um jurista brasileiro em pleno ano de 2015. Para dar um tom pretensamente respeitável ao disparate, o procurador cita a fala do filósofo espanhol Fernando Savater em sua recente participação no Fronteiras do Pensamento. Confiram aqui, na íntegra, o que disse Savater:

—Um dos primeiros objetivos da educação é preservar os filhos de seus pais. — disse, arrancando risadas — não me parece bom, portanto, submeter permanentemente os filhos aos pais. A escola ensina muito mais do que os conteúdos aplicados nela, e sim a conviver com pessoas que não temos razões para gostar, e que às vezes até não gostamos, mas que precisamos respeitar.

Em outras palavras, o que o filósofo só teve coragem de dizer em tom jocoso, o procurador assume de maneira inequívoca: as crianças não são responsabilidade dos pais, mas propriedades do Estado; a sociedade não é mais o resultado do agrupamento de muitas famílias, mas da máquina estatal de produção de analfabetos em série.

Se vivêssemos num país onde a qualidade da educação fosse de incontestável excelência, até seria questionável o receio quanto ao homeschooling. Entretanto, a realidade nos mostra exatamente o contrário: ano após ano ocupamos os vergonhosos últimos lugares nos rankings internacionais de educação! Metade dos alunos do ensino superior (superior!) são analfabetos funcionais, ou seja, não sabem ler e interpretar um texto corretamente! Para não mencionar a situação dos alunos do ensino fundamental e médio! Num contexto assim, faz sentido obstruir às famílias desejosas de prover aos seus filhos uma formação superior o exercício do seu direito? Não, não faz o menor sentido! Assim como não faz sentido afirmar que os pais são um perigo para os seus filhos! Logo, restam-nos duas opções: ou assumirmos a insanidade mental do procurador, ou o seu mau-caratismo.

Como não precisamos acolher qualquer que seja das duas opções passivamente, mas, antes, temos o direito e o dever de expressar nossa revolta quanto aos termos do procurador, assinemos a petição pelo respeito às famílias e ao seu direito de escolha do modelo educacional de sua preferência.