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Leituras de janeiro

Há um ano atrás, quando começamos nosso primeiro clube do livro, não podíamos imaginar os rumos que seguiríamos após tão pouco tempo transcorrido. Agora, não só prosseguimos com o trabalho n’A casa de Penélope, como também, atendendo aos pedidos das associadas, criamos o Clubinho Literário, voltado para crianças entre 6 e 10 anos. Como é bom crescer!

Mas, para quem está chegando agora, aqui vai um resumo das nossas propostas:

A casa de Penélope

Este é um clube de literatura nascido do meu desejo de partilhar um pouco do caminho que vinha trilhando solitariamente. Em resposta ao desafio de um sacerdote, esforcei-me por encontrar tempo para investir em meu aprimoramento pessoal, buscando por títulos que me auxiliassem a melhor compreender e desempenhar minhas diferentes funções enquanto esposa, mãe, etc. Assim, A casa de Penélope é um clube voltado exclusivamente para mulheres, com carga anual de seis obras, selecionadas de acordo com o tema do ano, e cada uma delas trabalhada ao longo de dois meses. O próximo tema, a ser trabalhado em 2018, é a maternidade, de modo que leremos obras que, de algum modo, nos dão ocasião de vislumbrar os melhores e piores modelos, para que nos inspiremos nos primeiros e nos curemos dos segundos. Além dos livros, há amplo material de apoio (guia de leitura, newsletters) e ainda espaços para discussão e interação (grupo fechado e hangouts) entre as associadas.

Clubinho Literário
Já o Clubinho, como disse acima, é uma resposta ao pedido de algumas mães participantes d’A casa de Penélope que, vendo os benefícios que as leituras proporcionavam às suas vidas, desejavam algo que trouxesse semelhantes benefícios aos seus filhos. A dinâmica do Clubinho é um pouco diferente, no entanto: selecionamos doze obras, uma para cada mês do ano, privilegiando títulos edificantes e virtuosos. O critério para esta seleção foi, basicamente, o seguinte: primeiro, não escolher obras que meus próprios filhos não tivessem apreciado; segundo, dentre as obras prediletas deles, priorizar aquelas que oferecessem ferramentas para educação da linguagem, educação do imaginário e educação moral. Ou seja, não basta que o livro seja divertido, mas é necessário que ele expanda o vocabulário infantil, sua imaginação e, sobretudo, seu conhecimento das virtudes humanas. Além dos livros, também produzimos material de apoio (guia de leitura e newsletter) e a possibilidade de contato virtual entre os participantes (por meio do e-mail dos pais).
Se você tem interesse em qualquer uma de nossas propostas, clique nos links, informe-se e venha crescer conosco. O prazo para participação em janeiro de 2018 encerra dia 27 deste mês de novembro!

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Outubro imperdível

Materiais gratuitos 
Quem tem ouvido falar sobre A casa de Penélope poderá conhecer melhor e gratuitamente o trabalho que temos desenvolvido no clube. Basta cadastrar o email (período de inscrições encerrado) para receber durante quatro dias, de 24 a 27 de outubro, um conteúdo exclusivo a respeito de um dos livros que lemos até o momento n’A casa: poderá ser um guia de leitura, uma newsletter, um hangout… Assim, se houver ainda alguma dúvida sobre se vale ou não a pena participar, certamente será sanada. 😉

Cursos com descontos
Como temos recebido muitos pedidos de ajuda, por emails e por mensagens, a respeito do homeschool, resolvemos antecipar nossa promoção de final de ano para o dia 12 deste mês, e oferecer os cursos “Homeschooling 1.0” e “De volta ao lar” com 50% de desconto. Será uma promoção relâmpago que durará apenas um dia, então fiquem atentos!

Novas assinaturas com bônus
Aqueles que quiserem garantir a participação desde o início de 2018 no ainda inédito Clubinho Literário, ao realizar sua inscrição receberão nosso curso “Ensine seus filhos a gostar de ler” gratuitamente. Já aquelas que se inscreverem n’A casa de Penélope receberão, sem custo algum, todo o material digital referente ao livro Madame Bovary, que foi a quarta leitura do Ano da esposa.
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4 anos, Dante, 1,2,3

Hoje o blog completa quatro anos de atividade! Embora soe piegas, não é falso dizer que encontramos e continuamos a encontrar muita alegria neste caminho. É verdade que as postagens por aqui diminuíram, e isto fundamentalmente por conta das demais frentes de trabalho que desenvolvemos (se quiser conferir, veja aqui e aqui), mas o dia a dia do homeschool permanece firme e forte, abundante em bons frutos.

Assim, venho compartilhar com vocês, nossos fiéis leitores, a recente descoberta de dois livros que podem ajudá-los com os estudos das crianças.


Ainda que eu evite tanto quanto possível as adaptações (e nesta palestra eu explico o porquê), o primeiro deles é uma versão adaptada para crianças de Divina comédia. “Oh! Meu Deus! A Divina comédia para crianças! As pobrezinhas terão pesadelos!”. Sim, eu também tive receio e até guardei o livro em um primeiro momento (não em função da Chloe, mas pensando no Benjamin), contudo, o próprio Benjamin foi atrás do livro e, folheando-o, ficou interessadíssimo. Desde então temos lido umas quatro páginas por dia, ele tem gostado muito e em momento algum teve medo ou pesadelos. Pelo contrário, o livro nos deu ocasião para falarmos sobre muitos pecados, sobre a justiça e misericórdia divinas.

Enfim, percebi que a Divina comédia, ainda que adaptada, tem sido uma boa introdução ao clássico de Dante e uma fonte de reflexões importantes e necessárias. Para quem pretende utilizar a metodologia clássica no homeschool, trata-se de uma boa ferramenta para um primeiro contato, para uma visão geral do conteúdo do livro. Sem mencionar as excelentes, maravilhosas ilustrações. Claro, cada pai e mãe precisa avaliar se tal obra convém aos seus filhos na idade em que estão ou não. Além dela, há ainda A Ilíada, A Odisséia, A Eneida e Os cavaleiros da távola redonda na mesma coleção, pela Editora Paulinas.

O segundo livro foi indicação da amiga Waleska Montenegro (seu perfil é um verdadeiro baú de excelentes sugestões de materiais e livros para crianças menores) e o temos usado com o Nathaniel, agora que ele resolveu “escrever letras”. Trata-se do Aprendo a contar, que serve, basicamente, para treinar o traçado dos números infinitas vezes, pois sua superfície é plastificada e permite que apaguemos o que foi escrito. Além dele, há também o Aprendendo a ler, que trabalha o traçado das letras. Ambos são bilingues, o que auxilia àqueles que querem introduzir algum vocabulário em inglês nas atividades das crianças.

A única coisa ruim é que a caneta que acompanha o livrinho veio completamente esgotada, de modo que temos usado uma caneta molhada para fazer os exercícios (mas uma canetinha comum deve resolver o problema, imagino eu).

Espero que as sugestões tenham sido úteis. Até breve!

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Lançamento e promoção

Neste último domingo, finalmente veio a público um trabalho no qual estamos há bastante tempo investindo: a expansão do Selo Homebooks da Editora Concreta. Agora, além de prosseguirmos publicando “Os fabulosos livros coloridos”, de Andrew Lang, publicaremos também, num sistema de adesão por assinatura, um box mensal com uma porção de itens úteis, instrutivos e divertidos para as crianças.

Para começar, resolvemos resgatar a antiga e excelente enciclopédia infantil O tesouro da juventude. Relendo e revisando seu conteúdo, entregaremos aos assinantes um fascículo de aproximadamente 100 páginas com aqueles conteúdos que ainda hoje se mantém atuais e relevantes aos nossos pequenos. Será O melhor do Tesouro da Juventude.

Além do fascículo, concretizaremos ainda um antigo sonho meu: a publicação da primeira revista sobre homeschooling do país. Nosso objetivo é, mais do que informar, também auxiliar na formação das famílias praticantes ou simpatizantes da educação domiciliar em nosso país, explicando conceitos, contextualizando fatos, expandindo horizontes etc.


Para divertir a criançada, um jogo exclusivo será enviado mensalmente, ajudando também na fixação dos conteúdos apresentados no fascículo.

Como não poderia deixar de ser, um brinde surpresa e um cupom de desconto para utilizar com outros produtos da Editora Concreta serão também enviados no mexmo box. No entanto, e para melhorar ainda mais, os 200 primeiros assinantes ganham um desconto vitalício na Editora (restam ainda 84 assinaturas promocionais, de acordo com o site).

Por último, entrando no ritmo do mês de aniversário do blog (quatro anos!!!), faremos, como já é tradição, uma promoção dos nosso cursos. Assim, a partir do dia 20 deste mês até o dia 14 de maio, dia das mães, tanto o curso De volta ao lar quanto o Homeschooling 1.0 estarão com 50% de desconto no site do Instituto Isidoro de Sevilha. Nossos demais cursos, disponibilizados aqui mesmo, na aba CURSOS, permanecerão com os mesmos valores, uma vez que já estão bem baratinhos.

Nosso trabalho está crescendo e assumindo novas formas, o que explica também o decrescente número de postagens por aqui. Acompanhe-nos em nossas novas frentes, confira os conteúdos e aproveite os descontos!

Concreta In Box: www.inbox.livrariaconcreta.com.br
Instituto Isidoro de Sevilha: www.isidorodesevilha.com.br

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Dois livros sobre vida no campo

Há tempos quero recomendar dois livrinhos incríveis e complementares, que tanto meninos quanto meninas irão gostar, desde os cinco, seis anos de idade, até os dez, onze.

Um deles já recomendei em outras ocasiões, mas sem maiores explicações: trata-se do clássico norte-americano O jovem fazendeiro, de Laura Ingalls Wilder. Neste livreto, ainda mais divertido que o primeiro da série – Uma casa na floresta – Laura narra a infância do marido, Almanzo Wilder, numa época já um pouco afastada da nossa. A história desenvolve-se ao longo de um ano na vida de Almanzo, que contava, então, nove anos de idade. Escola, brincadeiras, roupas, comidas, animais, fé e trabalho, muito trabalho, retratam o dia a dia do menino.

Àquelas famílias que precisam enriquecer o imaginário infantil com bons exemplos, Almanzo Wilder e seus irmãos Royal, Eliza Jane e Alice são um prato cheio. Confiram este trecho:


O pai estava um pouco adiante, na rua, conversando com o Sr. Paddock, o fabricante de carroças. Almanzo caminhou lentamente em direção a eles. Estava amedrontado, mas tinha de ir. Quanto mais se aproximava do pai, mais medo tinha de pedir um níquel. Nunca havia pensado em semelhante coisa. Estava certo que o pai não lhe daria.
Esperou até que o pai parasse de falar e olhasse para ele.
– O que houve, filho? – perguntou o pai.
Almanzo estava assustado.
– Pai… – disse ele.
– Sim, meu filho?
– Pai – disse Almanzo -, o senhor quer me dar… quer me dar… um níquel?
Ficou ali enquanto o pai e o Sr. Paddock olhavam para ele e teve vontade de desaparecer. Finalmente o pai perguntou:
– Para quê?
Almanzo olhou para seus mocassins e murmurou:
– Frank tinha um níquel. Comprou limonada vermelha.
– Bem – disse o pai lentamente -, se Frank o convidou, está certo que você também o convide.
O pai enfiou a mão no bolso. Então parou e perguntou:
– Frank lhe ofereceu limonada?
Almanzo queria tanto ganhar o níquel que fez um aceno afirmativo. Depois estremeceu e disse:
– Não, pai.
O pai olhou-o por um longo tempo. Depois tirou a carteira, abriu-a e, lentamente, tirou um meio dólar de prata, grande e redondo. Perguntou:
– Almanzo, sabe o que é isto?
– Meio dólar – respondeu Almanzo.
– Sim. Mas você sabe o que é meio dólar?
Almanzo só sabia que era meio dólar.
– É trabalho, filho – disse o pai. – É isso que o dinheiro é; trabalho duro.
[…]
O pai perguntou:
– Sabe cultivar batatas, Almanzo?
– Sim – respondeu Almanzo.
– Diga: você tem uma semente de batata na primavera, o que faz com ela?
– Corto-a – respondeu Almanzo.
– Continue, filho.
– Primeiro gradamos… depois adubamos o campo e em seguida o aramos. Depois gradamos e marcamos o terreno. Plantamos as batatas, aramos e capinamos. Aramos e capinamos duas vezes.
– Está certo, filho. E depois?
– Depois as colhemos e guardamos na adega.
– Sim. Depois as selecionamos durante todo o inverno; jogamos fora toda as pequenas e as podres. Quando chega a primavera, carregamos a carroça de batatas e as levamos a Malone, onde as vendemos. E, se conseguimos um bom preço, filho, quanto recebemos por todo esse trabalho? Quanto recebemos por meio bushel de batatas?
– Meio dólar – disse Almanzo.
– Sim – confirmou o pai. – É isso que está neste meio dólar, Almanzo. O trabalho que foi necessário para obter meio bushel de batatas está aqui nele.
[…]
– É seu – disse o pai. – Pode comprar um leitãozinho com ele, se quiser. Pode criá-lo e ele lhe dará uma ninhada de porquinhos que valerão quatro, cinco dólares por cabeça. Ou você pode trocar esse meio dólar por limonada e bebê-la. Faça o que quiser, o dinheiro é seu.
[…]
Os meninos só acreditaram depois que ele mostrou a moeda. Então se agruparam à sua volta, esperando que ele a gastasse. Mostrou-a a todos, depois tornou a guardá-la no bolso.
– Vou dar uma volta por aí – disse ele – e comprar um bom leitãozinho.


O segundo livro que desejo recomendar é inédito, isto é, jamais falei dele em lugar algum. Trata-se de uma gratíssima surpresa presenteada já há algum tempo por minha sogra: o Dicionário por imagens da fazenda. O livrinho é a tradução de um volume de uma pequena coleção francesa, o que explica sua completude e excelente qualidade. Nele não são mencionados apenas os elementos tradicionais que compõem uma fazenda, mas diferentes tipos de fazendas são aprensentados, de várias regiões do mundo, revelando suas belezas e peculiaridades. Além disso, há páginas dedicadas às diversas produções de alimentos, como o pão, o leite e derivados. As ilustrações são excelentes, bem realistas, e os textos são claros.

Infelizmente, parece que o livrinho sumiu das prateleiras, mas outros exemplares da mesma coleção ainda podem ser encontrados, como o Dicionário por imagens do mar e o Dicionário por imagens da Bíblia, que eu não conheço pessoalmente, mas que, se forem bons como o da fazenda, valem a pena.

Enfim, quem precisar de recursos para estimular nas crianças o desenvolvimento de virtudes como a paciência, o empenho, o respeito, a perseverança, aí estão algumas sugestões.
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Sugestão de Natal (2)

A Denise Reis me pediu socorro inbox, lá no facebook, (a escola solicitou a compra de 4 livros infantis de diferentes faixas etárias para cada uma de suas 3 crianças) e eu resolvi deixar pública a lista que passei a ela, pois pode ser útil a mais alguém.
Coloquei os links do Amazon porque lá está acontecendo uma “feirinha do livro”: a cada 4 livros infantis comprados, o mais barato sai de graça.

Para menina de 9 anos:
– Volume com 3 histórias da Condessa de Ségur (http://amzn.to/2hEiW7O)
– Uma casa na floresta (http://amzn.to/2h6Jmi9)
– Um jovem fazendeiro (http://amzn.to/2h6J9LI)
– Uma casa na campina (http://amzn.to/2ibKTkt)

Para menino de 6 anos:
– A última canção de Bilbo (http://amzn.to/2hR9oqx)
– Peter Rabbit (http://amzn.to/2h6LhmN)
– O mágico de Oz (http://amzn.to/2h6C6Tp)
– Peter Pan (http://amzn.to/2h6I9qT)


Para menina de 3 anos
– Clifford e os sons dos animais (http://amzn.to/2ibGqOK)
– Uma mão lava outra (http://amzn.to/2h6WqUr)
– Uma lagarta muito comilona (http://amzn.to/2hEulEH)
– Da cabeça aos pés (http://amzn.to/2hWjS5j)


Agora, quem quiser não só boas indicações de livros, mas aprender a selecioná-los, faça o meu curso “Ensine seus filhos a gostar de ler”, onde explico quais são os critérios para construir uma boa biblioteca para as crianças (www.encontrandoalegria.com – Aba CURSOS), entre muitas outras coisas.
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Inglês e O último dos moicanos

Não há como negar que a prática do homeschooling no Brasil é um caminho repleto de tentativas e erros. No nosso caso não é diferente. Já experimentamos vários métodos e tenho certeza que ainda experimentaremos outros mais, conforme os outros filhos forem crescendo e evidenciando as suas particularidades no processo de aprendizagem. Quando, porém, “acertamos a mão”, então a coisa finalmente deslancha.
Recentemente acertamos a mão com o inglês. Quem nos acompanha desde o início sabe que já utilizei diferentes recursos com a Chloe — para não mencionar o que ela aprendeu no Colégio Israelita durante a educação infantil. Sempre procurei deixá-la mais ou menos intensamente em contato com o idioma de Shakespeare, seja por meio de livrinhos como o “First Words”, de sites como o Duolingo ou de metodologias mais completas como o “English by the natural method”. Todos eles contribuíram em alguma medida, pois aos poucos o vocabulário foi sendo assimilado e consolidado. Agora, porém, fomos além — e de um modo curiosamente não intencional.
Meses atrás o professor Olavo de Carvalho citou o livro “O caçador” como um de seus favoritos. Fomos em busca e, ao que tudo indica, compramos o livro errado, diferente daquele recomendado: o que adquirimos foi escrito por James Fenimore Cooper. Apesar do engano, fomos adiante, e o livro revelou-se uma agradável surpresa. Na edição que adquirimos, além d’O caçador, havia ainda a sua continuação: O patrulheiro. Um sucesso em dose dupla. Um erro que se tornou um grande acerto.
Passado algum tempo, fizemos uma nova compra de livros e, entre eles, um dos exemplares veio no idioma errado: “O último dos moicanos” em inglês. O que nós não sabíamos, porém, é que “O último dos moicanos” também é de autoria de James Fenimore Cooper e — melhor de tudo — é a continuação de “O patrulheiro”! Para encerrar com chave de ouro mais esse erro excepcionalmente oportuno, a edição que recebemos faz parte de uma coleção adaptada pela Penguin para a prática do inglês por meio da… tradução! — conversação não é a nossa prioridade, mas leitura e escrita, sim. E tradução no nível em que acredito que Chloe realmente se encontra: o Elementary, com 600 palavras. Mais providencial e sob medida impossível.

Enfim, voluntariamente, todas as manhãs — inclusive aos domingos — ela reúne caderno, dicionário, livro, lápis, borracha e se debruça sobre mais um empolgante parágrafo de “O último dos moicanos”, permanecendo ali até conseguir concluí-lo. Atualmente ela já está no final do segundo capítulo e está gostando muito, muito, tanto da história quando do método. 🙂

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Dica #3 – Leitura em voz alta

A terceira e última dica da série especial do nosso mês de aniversário não é exclusiva para as mamães. Trata-se de um livro para ser lido em voz alta, desfrutado por muitos ao mesmo tempo, naquele momento do dia em que o pai ou a mãe lêem para as crianças ou para a família inteira. Aqui em casa, adotamos essa prática ainda antes de começarmos o homeschool, reservando dois momentos do dia para essa modalidade de leitura, um pouco à tarde e um pouco à noite. Hoje, porém, com a Chloe já alfabetizada, reservo-me o período da noite para a leitura em voz alta, já que à tarde normalmente é ela quem lê para os irmãos. 🙂

O livro a que me refiro foi indicado por um amigo anos atrás. Ele, enquanto lia os textos de Otto Maria Carpeaux sobre literatura ocidental, deparou-se com essa indicação, expressa mais ou menos nos seguintes termos: “a maior obra de literatura infantil do século XX.” O livro, bem como a autora, são mencionados entre os grandes também lá na Coleção “Tesouro da Juventude”. O próprio Oscar Wilde, ao deparar-se com uma das obras da autora, disse, aturdido: “Não, uma mulher não era capaz de escrever assim. O livro escreveu-se nela.” Ela, a escritora, foi agraciada com o Nobel de Literatura em 1909, e este seu trabalho a tornou mundialmente conhecida, tendo sido traduzido para dezenas de línguas e, mais tarde, sendo transformando em desenhos animados e até em filme. Refiro-me a Selma Lagerlöf, escritora sueca, e ao seu livro A maravilhosa viagem de Nils Hölgersson através da Suécia. 

Selma Lagerlöf
Nossa edição portuguesa, adquirida por míseros R$ 8,00.


Embora seja de fato um livro incrível, logo que o adquirimos não conquistamos a atenção devida por parte das crianças — na época, Chloe devia ter uns 6 ou 7 anos e Benjamin 1 ou 2. Como sei que, muitas vezes, o insucesso entre os pequenos é questão de maturidade e não de gosto, deixei o tempo passar e, recentemente, quando o pegamos novamente, o sucesso foi instantâneo — Chloe está com 10 e Benjamin com 5 anos, e ambos gostaram muito. Ou seja, trata-se de um livro para crianças maiores.

Nils Hölgersson nasceu de uma solicitação de professores suecos diante da carência de bom material para o ensino da geografia nacional às crianças. Selma, porém, ao atender tal solicitação, foi muito, muito além, criando uma obra que fôlego imenso, rica não apenas nas descrições do território da Suécia e de sua composição, mas também nas descrições da fauna e da flora, bem como dos costumes, da arquitetura, das lendas e da história do povo sueco. Tudo isso, no entanto, organicamente entrelaçado à história do menino Nils, um perfeito malandro que, como paga da sua peraltice, é transformado em gnomo e nesta condição percorre todo o país montado nas costas de um ganso doméstico. Assim, a aventura de Nils é sobretudo uma aventura moral, na qual o menino, por conta de suas maldades, sofre a maldição de ser reduzido em suas proporções e precisa, por meio de muitos esforços reparadores, quebrar o feitiço e finalmente voltar a ser gente.

Dias atrás, quando falei a respeito da dica de hoje, mencionei que a obra serviria como uma espécie de primeiro treino àqueles que quisessem adotar o método do prof. Rafael Falcón para oferecer uma formação clássica, baseada na literatura, às crianças, e digo isso pelos seguintes motivos:
1. Embora seja, em nosso caso, uma leitura voltada ao entretenimento, por consistir em um livro antigo, sua linguagem não é, ao menos não na edição que adotamos aqui, uma linguagem perfeitamente usual, exigindo o uso do dicionário algumas vezes;

2. Além disso, por referir-se a um contexto muito diverso do nosso, muitas noites após a leitura fomos ao google para melhor entender a trajetória adotada como percurso pelos patos selvagens;
3. Também conhecemos uma porção de animais, sobretudo aves, e árvores que não conhecíamos;
4. O melhor de tudo, porém, era acompanhar como toda a natural ousadia irresponsável (e até imoral) de Nils foi se convertendo em uma coragem do tipo mais virtuoso, tornando-o disposto até mesmo ao máximo sacrifício: o sacrifício de si em benefício dos amigos patos.

Ao longo de todas as muitas noites de leitura, dizia a mim mesma constantemente: Como seria bom se houvesse semelhante livro voltado ao Brasil! Claro, seria um trabalho hercúleo, dadas as proporções de nosso país, mas como seria incrível poder ensinar geografia nacional de semelhante modo aos nossos filhos! Que Deus ainda nos conceda alguém com talento literário e conhecimento suficientes para vermos algo assim por aqui.

Preciso dizer mais? Recomendo sem titubeio!

Para quem não viu as dicas #1 e #2, deixo aqui e aqui os respectivos links. Para quem quiser saber mais sobre o cronograma do nosso mês de aniversário, especialmente sobre as promoções (que encerram hoje!) deixo aqui também o link.

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Literatura de qualidade: a “margem de segurança” do homeschooling

Para quem me acompanha no facebook não é novidade: estamos já na etapa da revisão do livro Homeschooling católico – Um guia para pais, ou seja, se tudo der certo, até o final de abril entregaremos o livro àqueles que garantiram o seu exemplar. Tem sido uma pequena e recompensadora jornada, pois mais do que falar sobre homeschooling, este é um livro que aprofunda a fé católica, amarrando ambos os assuntos de uma maneira intensa e precisa.

Pois bem, relendo as páginas iniciais, deparo-me com algo que me tinha passado batido: dentre as várias respostas de um professor às mais comuns objeções contra o homeschooling, encontrei uma consideração interessantíssima a respeito da importância da literatura. E como este é um assunto recorrente em minha vida, não só porque é parte da rotina da minha família mas também porque muitas pessoas me escrevem pedindo dicas e buscando soluções para as suas dificuldades, resolvi compartilhar com vocês um pouco do que o referido professor disse.

Sabemos que o homeshooling envolve um mundo de coisas, não só em termos de conteúdos, mas também de habilidades, particularidades e circunstâncias de cada família, ou seja, mais do que lidar com aulas propriamente ditas, lida-se com vidas inteiras, em todas as suas dimensões, pois estamos tratando de nossos filhos no seio de nossa família. Contudo, mesmo que haja tantas coisas envolvidas e sobre as quais precisamos atentar, possibilitar à criança uma boa alfabetização e, posteriormente, um contato constante com literatura de qualidade é simplesmente essencial. Eu disse ESSENCIAL.

Não, o que digo não é exagero. Não, um grande talento científico ou matemático não pode servir como desculpa para que as letras e seu domínio sejam negligenciados ou mesmo substituídos. E isso por um motivo muito simples: o conhecimento e o domínio da língua mãe, bem como a formação de um imaginário rico e virtuoso, são as chaves que abrem todos os mundos, incluindo os científicos e matemáticos. Sem uma boa capacidade de leitura e de interpretação, problemas, hipóteses e teorias podem ser completamente  distorcidas ou incompreendidas, o que torna o talento, na melhor das possibilidades, subaproveitado, e, na pior, inútil.

Agora, porém, vem a consideração própria do professor, sobre a qual eu ainda não tinha pensado: uma boa alfabetização e um programa de literatura de qualidade (de qualidade mesmo) cria uma espécie de “margem de segurança” ao redor da criança. Em que sentido? No sentido de que, mesmo nos casos daquelas famílias em que os pais, atingido determinado ponto da formação dos pequenos, não conseguem ir muito adiante ou não são naturalmente talentosos sobre aquela área, a boa preparação literária permite que a criança adquira um excelente desempenho no assunto por conta própria.

Sim, o autodidatismo é um dos nossos objetivos aqui em casa, e sabíamos que o alto desempenho em leitura e interpretação é um dos caminhos para alcançá-lo, mas eu nunca havia pensado em termos de “margem de segurança”, como uma espécie de “garantia” contras as limitações paternas. Claro, uma coisa são limites efetivos, outra é preguiça. E é evidente que tal “margem” só pode e deve ser utilizada depois que a criança já avançou bastante em idade, em conteúdos e em domínio dos mesmos, caso contrário, incentivada precocemente a lidar com desafios que estão acima da sua capacidade, ela obterá apenas frustração e sofrimento desnecessário.
Para melhor ilustrar o que quero dizer quando falo em literatura de qualidade, deixo abaixo a lista dos livros que a Chloe (que está com dez anos) deverá ler ao longo deste ano, o que também poderá ser útil a outros pais com crianças da mesma idade — vale notar, no entanto, que aqui não estão incluídos nem os livros selecionados espontaneamente por ela (que sempre acrescenta obras de Monteiro Lobato e curiosidades aleatórias), nem o livro de estudo (Os Lusíadas), nem os livros que leio para todos eles à noite:

  • Oliver Twist, de Charles Dickens (já concluído);
  • O caçador, de James Fenimore Cooper (já concluído);
  • O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper;
  • A comédia dos erros, de Shakespeare (já concluído);
  • Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne;
  • Da terra à lua, de Júlio Verne;
  • Tarzã dos macacos, de Edgar Rice Burroughs;
  • Kim, de Rudyard Kipling;
  • O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper;
  • Um conto de Natal, de Charles Dickens.
Também fazemos alguns exercícios de interpretação de texto e resumos, para termos a certeza de que ela está compreendendo corretamente e sabendo expressar adequadamente aquilo que leu.

Enfim, mais do que ampliação de vocabulário e enriquecimento do imaginário, mais do que formação do caráter e aquisição de cultura, a boa literatura também é o passaporte para o autodidatismo e a garantia de que nossos filhos conseguirão ir mais longe do que nós.

PS: Se o caso do seu filho é totalmente diferente, isto é, se ele não gosta de ler e você não sabe mais como incentivá-lo na aquisição deste hábito, por favor, escreva para o email encontrandoalegria@gmail.com Nos próximos dias abrirei uma nova turma do curso “Ensine seus filhos a gostar de ler” e ao enviar o email você não perderá nenhum aviso a respeito.

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Meu conto de Natal favorito

Hoje à noite, por ocasião do Natal, interromperemos a sequência da nossa leitura noturna do momento para lermos aquele que é o meu conto de Natal favorito. Aos que quiserem fazer o mesmo, deixo-o copiado abaixo. Tenho certeza absoluta de que não haverá razões para arrependimento. 🙂

Um feliz Natal a todos! Que o Menino Deus nos inspire para que em 2016 sejamos corajosos como Ele sempre foi, para que lutemos por aquilo que, mais que nosso direito, é nosso divino dever: educar nossos filhos.

O Gigante egoísta, de Oscar Wilde.


Todas as tardes, quando voltavam da escola, as crianças costumavam ir brincar no jardim do Gigante.

Era um belo e vasto recanto, coberto de grama verde e macia. Aqui e ali, por sobre a relva, apontavam lindas flores, semelhando estrelas. Havia doze pessegueiros que, na primavera, se abriam em delicada floração de cor rosa e pérola; no outono, ficavam carregados de deliciosos frutos. Os pássaros, pousados nas árvores, cantavam tão docemente que as crianças costumavam interromper os seus brinquedos para escutá-los.
— Quão felizes somos aqui! — diziam entre si.
Um dia o Gigante regressou. Fora visitar um amigo, o papão da Cornualha, hospedando-se em casa deste durante sete anos. Decorrido esse tempo, dissera tudo quanto tinha a dizer, visto que sua conversa era pouca; e resolveu retornar ao seu próprio castelo. Ao chegar, viu as crianças brincando no jardim.
— Que estais fazendo aqui? — gritou-lhes, com voz bastante ríspida.
A criançada deitou a correr.
— Meu jardim é meu jardim. Todos sabem: não permito que ninguém, a não ser eu mesmo, brinque nele — resmungou consigo.
E ergueu uma alta muralha à volta do vergel, afixando a tabuleta de aviso:


OS INVASORES SERÃO PROCESSADOS


Era um Gigante deveras egoísta.
As pobres crianças não tinham, agora, onde brincar. Experimentaram fazê-lo na estrada, mas esta era poeirenta e cheia de pedras ásperas; não gostavam dela. Ao término das aulas, costumavam perambular à volta das altas muralhas, conversando sobre o lindo jardim que havia ali dentro.
— Como éramos felizes ali! — diziam-se.
A primavera chegou, então, e, por todo o campo, surgiram florzinhas e pássaros. Apenas no jardim do Gigante Egoísta era inverno ainda. Nele as aves não queriam cantar, pois não havia crianças, e as árvores não se lembraram de florir. Certa vez, uma linda flor pôs a cabeça para fora da grama; avistando, porém, a tabuleta, sentiu tanta pena dos infantes que se enfiou, novamente, de mansinho, no solo, e adormeceu. Os únicos seres satisfeitos eram a Neve e a Geada.
— A primavera esqueceu-se deste jardim — disseram. — Por conseguinte, ficaremos aqui durante o ano todo.
A primeira cobriu a relva com seu extenso manto branco, e a segunda tingiu as árvores de prata. Em seguida, convidaram o Vento do Norte para vir ter com elas, e este veio. Envolto em casaco de pele, zunia o dia inteiro pelo vergel, derribando as chaminés.
— É um lugar aprazível — falou-lhes o Vento. — Devemos convidar o Granizo para uma visita.
Este último também veio e, todos os dias, durante três horas, tamborilava no telhado do castelo, até que fendeu a maior parte das telhas; e passou, então, a correr à volta do jardim tão rápido quanto era capaz. Vestia-se de cinzento e seu hálito era que nem gelo.
— Não compreendo porque a primavera está demorando tanto para vir — murmurou consigo o Gigante, ao postar-se à janela, olhando lá fora o seu vergel branco e triste. — Espero que o tempo mude.
A primavera, porém, jamais veio, e tampouco o verão. O outono trouxe dourados pomos a todos os jardim, mas ao do Gigante, nem um sequer.
— É egoísta demais — justificou.
De modo que ali era sempre inverno; e o Vento do Norte, o Granizo, a Geada e a Neve dançavam por entre as árvores.
Certa manhã, o Gigante achava-se desperto, na cama, quando ouviu uma linda melodia. A música soou-lhe tão agradavelmente aos ouvidos que pensou fossem músicos reais passando. Na verdade, era apenas um Pintarroxozinho que cantava, fora de sua janela; fazia, porém, tanto tempo desde que ouvira um pássaro cantar, em seu jardim, que lhe pareceu ser a mais linda melodia do mundo. O Granizo parou, então, de saltitar sobre o telhado, e o Vento extinguiu o seu rugido; pela janela aberta, vinha-lhe um delicioso perfume.
— Creio que, por fim, a Primavera chegou — disse consigo, saltando da cama.
E olhou para fora… Mas o que via?!
Um quadro maravilhosíssimo! A criançada entrara furtivamente no jardim, através dum pequeno buraco na muralha, e estava sentada nos galhos das árvores. Em cada uma destas, havia uma criança. E as árvores estavam tão contentes por entreterem, de novo, a petizada, que se tinham coberto de flores e meneavam delicadamente os ramos por sobre as cabecinhas infantis. Os pássaros esvoaçavam dum lugar a outro, chilreando de prazer; as flores erguiam os olhos, por entre a grama verdejante, e riam. Uma linda cena; apenas num canto ainda era inverno, no trecho mais afastado do vergel; nele, havia um rapazinho em pé, tão pequeno que não lograva alcançar os galhos da árvore, e vagueava à volta desta, chorando amargamente. A pobre árvore ainda se encontrava coberta de neve e geada; o Vento Norte soprava, zunindo, sobre ela.
— Sobe, rapazinho! — instava a árvore, abaixando os galhos tanto quanto podia.
Mas o menino era muito pequeno.
O coração do Gigante comoveu-se àquela cena.
— Quão egoísta tenho sido! — disse. Compreendo, agora, porque a primavera não quis vir aqui. Colocarei aquele rapazinho no lato da árvore; depois, com uma pancada, derrubarei a muralha, e meu jardim será, para sempre, um parque infantil.
Lastimava, realmente, o que fizera.
Cuidadoso, desceu ao rés-do-chão, abriu a porta da frente bem devagar, e saiu para o jardim. Mas, avistando-o, as crianças atemorizaram-se de tal forma que todas elas deitaram a correr; e eli tornou a ser inverno, novamente. Só não correu o rapazinho, pois tinha os olhos inundados de lágrimas, a ponto de não notar a aproximação do Gigante. Este chegou, de mansinho, por trás do menino e, erguendo-o nas mãos, com brandura, colocou-o na árvore, que se enflorou no mesmo instante, e os pássaros vieram e cantaram, pousados em seus ramos. O rapazinho, estendendo os braços, lançou-os em torno do pescoço do Gigante, a quem beijou. As demais crianças, ao perceberem que o homenzarrão já não era ruim, voltaram correndo; com elas, voltou também a primavera.
— Este jardim agora é vosso, meninos — disse-lhes o dono do castelo.
E tomando dum enorme machado, pôs abaixo a muralha.
Ao ir à feira das doze horas, o povo deparou com o Gigante a brincar com as crianças no mais lindo vergel jamais visto. Estas brincaram o dia todo e, ao cair da noite, foram despedir-se de seu benfeitor, que lhes perguntou:
— Onde está o vosso companheirozinho, o que pus na árvore?
O Gigante amava-o mais que aos outros, pois que dele recebera um beijo.
— Não sabemos — responderam-lhe. — Ele sumiu-se.
— Deveis dizer-lhe que não deixe de vir amanhã.
As crianças, porém, retrucaram-lhe que desconheciam onde morava o referido rapazinho e que nunca o tinham visto antes. O benfeitor entristeceu-se muitíssimo.
Todas as tardes, ao terminar das aulas, os petizes iam brincar com o Gigante; mas aquele a quem este amava, jamais foi visto outra vez. O Gigante era bastante gentil para com todas as crianças; contudo, sentia saudades de seu primeiro amiguinho e mencionava-o muitas vezes.
— Quanto eu gostaria de vê-lo! — costumava dizer.
Passaram-se os anos. O Gigante ficou bem idoso e alquebrado. Já não lhe era possível brincar por ali, de modo que permanecia sentado numa enorme cadeira de braços, vendo os folguedos infantis e admirando o seu jardim.
— Tenho um mundo de flores lindas — dizia consigo –, mas as crianças são as mais lindas flores de todas.
Numa manhã de inverno, ao vestir-se, olhou para fora da janela. A esse tempo, não mais detestava o inverno, pois sabia que era apenas a primavera adormecida, e que as flores respousavam.
Subitamente, esfregou os olhos, admirado, firmando a vista. Era, sem dúvida, um esplêndido cenário! No canto mais afastado do jardim estava uma árvore toda coberta de lindas flores brancas; seus galhos eram de ouro e deles pendiam pomos prateados; e, debaixo da árvore, o rapazinho que ele tanto amava!
Transbordante de alegria, correu para o rés-do-chão e dali para o jardim. Correu mais depressa ainda por sobre a grama, e aproximou-se do menino. Ao chegar-lhe bem perto, o rosto do Gigante tornou-se rubro de cólera.
— Quem ousou magoar-te? — perguntou-lhe, pois nas palmas das mãos do menino havia sinais de dois pregos cravados, sinais que se repetiam em seus pezinhos.
Insistiu:
— Quem ousou magoar-te? Dize, para que eu possa pegar da minha espada e matá-lo.
— Não! — respondeu-lhe a criança. — São estigmas do Amor.
— Mas, quem és? — tornou a indagar o Gigante.
Foi tomado, então, dum estranho temor, caindo de joelhos diante da criancinha, que lhe disse, sorrindo:
— Deixaste-me brincar uma vez em teu jardim; pois, hoje, irás comigo ao meu, que é o Paraíso.
Ao voltarem, correndo, naquela tarde, as crianças encontraram o Gigante morto, sob a árvore, e todo coberto de flores brancas.