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Condessa de Ségur e História da Arte

Dias atrás, no facebook, havia comentado que, quando chega o carteiro, as crianças ficam empolgadas como se fosse o próprio Papai Noel. E conforme havia prometido, aqui estão as pérolas que o carteiro nos trouxe:
 “As férias”, “Um bom diabrete” e “Braz e a primeira comunhão” são todas de autoria da Condessa de Ségur, portanto, clássicos da literatura infanto-juvenil cristã. “As férias” é a continuação de “As meninas exemplares” (sobre o qual eu escrevi aqui) e o último volume da trilogia sobre as meninas Madalena, Camila e Margarida. O bom de “As férias” é que, além de tudo, três primos vão fazer companhia às meninas na casa de Madame de Fleurville, o que evidenciou, para mim, o inegável talento da Condessa em retratar também o universo dos meninos.

Já o livro de “História da arte para crianças” é de autoria de Lenita Miranda de Figueiredo. Ainda não pude começar a lê-lo, mas, a julgar pelo índice e pelo primeiro parágrafo, promete ser uma boa introdução, um bom ponto de partida para as primeiras incursões da Chloe no mundo da arte. Dêem uma olhada:

“Num domingo ensolarado, aproveitando o começo das férias escolares, Daniela e Marcelo foram passar uma semana na casa de tio Emílio. Ele acredita que a Arte, ensinada desde a infância, prepara a sensibilidade das crianças para apreciar as belezas do mundo e reforça os verdadeiros valores espirituais que nada pode destruir.”

Eu concordo com o tio Emílio. =)

E o melhor de tudo: esses tesouros, já fora de catálogo, foram adquiridos em um sebo que estava com 70% de desconto em TODOS os livros. Ou seja, paguei mais no frete do que nas obras. Enfim, um achado daqueles! o/

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Brejeiro à la Dostoiévski


“Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa não foi falada. Vamos supor que sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia não exista. Assim, agradecendo sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que as nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.”

Trecho de “A cadeira de prata”, o penúltimo livro d’As Crônicas de Nárnia.

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A importância da literatura

Dias atrás, publiquei no facebook o currículo básico utilizado em Harvard por volta do ano de 1600, quando sua fundamentação era o Trivium. Hoje quero publicar aqui (e lá) alguns trechos do Teaching the Trivium que falam sobre a importância do estudo da literatura dentro deste método de ensino.

“O primeiro veículo para transmissão da cultura é a linguagem. Quando uma cultura adquire um grau de complexidade tal que requer uma literatura para transmitir-se completamente, então tal cultura pode ser classificada como uma civilização (…).

A primeira instituição a transmitir cultura é a família. A família transmite os princípios elementares e fundamentais de governo, religião e economia de uma cultura (…).

O conhecimento do presente é construído sobre o conhecimento do passado. Se removemos inteiramente o passado, então removemos os fundamentos sobre os quais temos construído. Se nós não conhecemos, em alguma medida, os escritores do passado – suas ideias, então não conhecemos mais do que eles – e não temos como construir sobre suas ideias. Quando cessamos de conhecê-los, cessamos de saber mais do que eles. Não conseguimos permanecer sobre os seus ombros se não estivermos sobre os seus ombros. Estar sobre os seus ombros é beneficiar-se da cultura – beneficiar-se da transferência de conhecimento acumulado de uma geração para outra. Isto é uma cultura civilizada – uma cultura construída sobre a literatura (…).

Um homem sem uma cultura civilizada é um homem sem um passado sobre o qual construir (…).

Um homem sem cultura é um homem sem materiais para construir um futuro.”

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Revolução cultural para baixinhos

Iludem-se aqueles que imaginam que as cartilhas e livros governamentais são os únicos materiais nocivos dos quais nossas crianças precisam ser protegidas. Sim, neles há toda sorte de erros, de concepções ideológicas travestidas de “fatos”, estímulos às drogas, ao desenvolvimento prematuro da sexualidade, entre outras coisas. No entanto, nossos adversários são bem mais espertos do que isso e seus braços são bem mais longos também.

Não raras vezes vejo pais e mães comemorando o interesse dos filhos em livrinhos infantis. Dizem, aliviados, que os filhos gostam de ler, que pegaram gosto pela coisa, que serão estudiosos e por aí vai. O problema é que poucas vezes os pais têm o mesmo entusiasmo para averiguar o tipo de conteúdo presente nos livrinhos e a respectiva mensagem que eles transmitem. Tal imprudência é mais ou menos o mesmo que deixar a criança entregue à TV, alegando que, afinal de contas, trata-se de um inofensivo canal de TV a cabo infantil.

Os engenheiros sociais sabem que juntamente com a influência dos pais (cada vez menor, dado o esfacelamento das famílias e as altíssimas cargas horárias de atividades que as crianças cumprem, hoje em dia, fora do cuidado e da supervisão familiar), a influência exercida sobre o imaginário infantil através das histórias, desenhos, fábulas e até músicas será decisiva para a construção do tipo de “cidadão” desejável. Não por acaso vivemos em uma época em que a nova moda é desconstruir os velhos contos e reescrevê-los, esvaziando-os totalmente dos ensinamentos morais e espirituais que auxiliavam no desenvolvimento, manutenção e fortalecimento das virtudes características da cultura judaico-cristã. 

Como exemplos concretos daquilo a que me refiro, citarei apenas dois casos, dos mais óbvios dentre muitos outros e mais sutis:


Super Why



Super Why é um desenho exibido no Discovey Kids Brasil, um canal de TV a cabo voltado para o público da primeira infância, desde bebês até crianças por volta dos seis anos de idade. Sob o pretexto de ensinar novas palavras às crianças, expandindo seu vocabulário, o Super Why reescreve os contos clássicos, tais como “O lobo mau” e “João e o pé de feijão”, alterando-lhes por completo o sentido. No episódio, por exemplo, do lobo mau, que é a representação alegórica do pedófilo, o lobo é transformado na raposa legal, de modo que todo o desenrolar da trama original é adulterado, e, portanto, a moral da história, que pretendia alertar as meninas para os perigos das conversas com homens desconhecidos, é perdida.

The night dad went to jail
 

Lançado em 2011, nos EUA, o livrinho acima, cuja tradução do título poderia ser “A noite em que papai foi para prisão”, faz parte de uma série chamada Life’s Challenges, da Capstone. Como vocês podem imaginar, a proposta do livro é bastante explícita em sua intenção de ajudar as crianças a lidar com problemas reais e cada vez mais comuns nas famílias (se você não se chocou com o que acabei de escrever, por favor, faça soar o alarme). A obra, bem como a série da qual faz parte, não receberam, até onde pude averiguar, tradução para a língua portuguesa, mas se não o receberam, certamente apontam para uma nova tendência e para um novo nicho do mercado editorial infantil. Já pensaram no quão úteis podem ser historinhas como “O dia em que mamãe virou prostituta”, “Quando meu irmão tornou-se um dependente químico” e coisas semelhantes?

Em outras palavras, não basta apenas que as crianças adquiram o hábito da leitura ou assistam a programações pretensamente selecionadas de acordo com a idade em que estão. Não. É preciso que adquiram o hábito da leitura lendo boas obras, preferencialmente mais antigas e clássicas, as quais ainda transmitem a riqueza do patrimônio imaginativo e cultural sobre o qual se assenta o Ocidente. Investindo em obras desse tipo, que geralmente encontram-se disponíveis em sebos a preços bem mais em conta do que os últimos lançamentos editoriais, bem como investindo em brinquedos e jogos que realmente estimulem a imaginação e a participação das crianças, não haverá tanto tempo nem tanto desejo de programas de TV. Além disso, é preciso que tenhamos sempre claro que, assim como a qualidade daquilo que comemos afetará nossa saúde física, assim também a qualidade daquilo que lemos, assistimos e ouvimos repercutirá sobre nossa saúde psíquica, moral e espiritual. Os engenheiros socias sabem muito bem disso. Mas e nós, pais e mães brasileiros?